Relacionar-se é conhecer o outro por um dedo com que licenciosamente perfuramos seu umbigo, rompendo-lhe às vezes sôfrega, às vezes abruptamente a membrana retorcida que outrora cedeu lugar ao cordão de vida que o nutria e que possivelmente a reencontre. É dizer-lhe vem cá, escorregar suavemente o dedo ainda e sempre seu pela pele invertida ainda e sempre dele que o reveste, penetrar-lhe mais a fundo o interior do abdômen, descobrir-lhe ao avesso, contemplar o outro lado da lua que é lua também, apalpar-lhe a carne tenra, fresca, morna e úmida de lá de dentro, explorá-lo por esse telescópio submarino dáctil que tudo encontra e observa e arrasta pelo caminho verificando o valor de cada víscera; sentir a pulsação, entender o ritmo descompassado e único desse corpo que o torna indivíduo, mergulhar no escuro vermelho de dentro vasculhando o lugar que sua alma percorre errante, vielas de paralelepípedos de superfície brilhosa e refratária e irregular onde por vezes – a alma também se cansa de caminhar – ela senta-se para repousar, gozar, chorar, sentir dor, querer, fugir, beber, fumar, derramar, amar.Conhecer o outro é tangenciá-lo por dentro.
É percorrer o solo onde a alma pisa, mas a alma é o que não está lá, ela por definição talvez seja o que ela não é. Estamos de acordo com isso, ou pelo menos temos em mãos ou melhor dizendo nas pontas dos dedos uma hipótese menos defensável que interessante: se o espaço é o que sobra entre dois sins, tocar o outro é saber-lhe o não, preenchendo-o com música, alimento, sopro. Bebendo talvez de volta a descoberta doce que se nos devolve, pois amar é troca, é ciclo. Amar é cio.
Olhar é enxergar com ternura singular o mesmo lado de dentro, mas fazê-lo por meio de ondas luminosas e frequências que como flechas certeiras propagam-se pelo ar. Com destinatário certo ou para um radar que as intercepte. Olhar é o vento e saber-se olhado é sentir a brisa. Farfalham bandeiras, agitam-se as copas das árvores, as ondas do oceano, e a areia, movem-se as nuvens e as folhas subtraídas aos galhos e os restos de copos plásticos sujos descartáveis partidos lançados ao vento, o vento varre e leva e traz de volta e beija. Olhar então é o verbo que ocupa espaços vazios, frio ar em movimento que penetra as frestas da janela, saia, da porta, da calça.
Olhar é o claro, tocar o escuro e os dois complementam-se, cumprimentam-se, fundem-se. Vento e vela, fogo e água, morte e vida, não e sim yang e yin.
Amar é flauta. Sopro, metal, dedos e música.
Olhar é, não menos, amar. Molhar.
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A imagem postada (chamei-a de "Vento") é uma composição feita a partir de fotografia tirada em uma festa de rua aqui em São Paulo e com matizes novas descobertas em Photoshop. Ano da foto, 2004.
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Do capítulo 10 do Bhagavad-Gita por Ramananda Prasad, tradução de Swami Krishnapriyananda Saraswati, (Dr. Olavo O. Desimon), disponível em http://www.gita-society.com/language/brazil_chapter10.htm:
“O Senhor Krishna disse: Ó Arjuna, escute mais uma vez estas palavras supremas que Eu irei falar para você, que é muito querido para Mim, para o seu bem [...]
Diferenciação, auto-conhecimento, não ilusão, perdão, honestidade, controle sobre a mente e os sentidos, tranquilidade, prazer, dor, nascimento, morte, medo, destemor, não-violência, equanimidade, contentamento, austeridade, caridade, fama, má fama – todas estas diversas qualidades humanas surgem unicamente de alguma coisa Minha [...]
Eu sou o Espírito supremo, que reside na psique interior de todos como alma (Atma). Eu, também, sou o criador, mantenedor e destruidor – ou o começo, o meio e o fim – de todos os seres [...]
Eu sou o sustentador. Entre as luminárias Eu sou o sol radiante; Eu sou o controlador do vento; entre as estrelas Eu sou a lua
Eu sou os Vedas. Eu sou o controlador celeste [...]
Eu sou o Senhor Shiva. Eu sou o deus da riqueza; Eu sou o deus do fogo e as montanhas [...]
Conheça-Me como o animal celestial entre os animais, e o Rei entre os homens. Eu sou o raio entre as armas, e Eu sou o cupido para a procriação
Eu sou o deus da água e das serpentes. Eu sou o controlador da morte. Eu sou o tempo ou a mortalidade entre os remédios; o leão entre os animais, e o rei dos pássaros entre os pássaros
Entre os purificadores Eu sou o vento, e entre os guerreiros Eu sou o Senhor Rama [...]
Ó Arjuna. Entre o conhecimento, Eu sou o conhecimento do Ser Supremo. Eu sou a lógica dos lógicos [...]
Eu sou a morte a que tudo devora, e também a origem dos futuros seres. Eu sou as sete deusas ou anjos guardiões que presidem as sete qualidades: fama, prosperidade, fala, memória, intelecto, decisão e perdão
Eu sou os védicos e outros hinos. Eu sou os mantras; Eu sou os meses de Novembro e Dezembro entre os meses;
e entre as estações Eu sou a primavera”.
“O Senhor Krishna disse: Ó Arjuna, escute mais uma vez estas palavras supremas que Eu irei falar para você, que é muito querido para Mim, para o seu bem [...]
Diferenciação, auto-conhecimento, não ilusão, perdão, honestidade, controle sobre a mente e os sentidos, tranquilidade, prazer, dor, nascimento, morte, medo, destemor, não-violência, equanimidade, contentamento, austeridade, caridade, fama, má fama – todas estas diversas qualidades humanas surgem unicamente de alguma coisa Minha [...]
Eu sou o Espírito supremo, que reside na psique interior de todos como alma (Atma). Eu, também, sou o criador, mantenedor e destruidor – ou o começo, o meio e o fim – de todos os seres [...]
Eu sou o sustentador. Entre as luminárias Eu sou o sol radiante; Eu sou o controlador do vento; entre as estrelas Eu sou a lua
Eu sou os Vedas. Eu sou o controlador celeste [...]
Eu sou o Senhor Shiva. Eu sou o deus da riqueza; Eu sou o deus do fogo e as montanhas [...]
Conheça-Me como o animal celestial entre os animais, e o Rei entre os homens. Eu sou o raio entre as armas, e Eu sou o cupido para a procriação
Eu sou o deus da água e das serpentes. Eu sou o controlador da morte. Eu sou o tempo ou a mortalidade entre os remédios; o leão entre os animais, e o rei dos pássaros entre os pássaros
Entre os purificadores Eu sou o vento, e entre os guerreiros Eu sou o Senhor Rama [...]
Ó Arjuna. Entre o conhecimento, Eu sou o conhecimento do Ser Supremo. Eu sou a lógica dos lógicos [...]
Eu sou a morte a que tudo devora, e também a origem dos futuros seres. Eu sou as sete deusas ou anjos guardiões que presidem as sete qualidades: fama, prosperidade, fala, memória, intelecto, decisão e perdão
Eu sou os védicos e outros hinos. Eu sou os mantras; Eu sou os meses de Novembro e Dezembro entre os meses;
e entre as estações Eu sou a primavera”.
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É bom unir-me ao vento, para ver, e à terra, para tatear.
Sopro, sopa, vida.
Gratidão infinita.

Estou achando uma delícia ler esses seus textos, sabia?
ResponderExcluirUma palavra que é muito importante na minha vida é GRATIDÃO!
Bjo, LINDO!
oi Luiz,
ResponderExcluirgostei do seu blog e sempre que possível, vou ler seus escritos.
um beijo, Cida Sepulveda