Memórias.
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Todo mundo é um pouco espelho da lembrança dos outros.
Na noite chuvosa de ontem, ex-colegas de faculdade reunidos para celebrar outro ano de vida de um de nós. Saudade sentada em torno à mesa, cadeiras em espelho, todo mundo é um pouco cópia de si mesmo.
Faz sentido, o tempo. Distancio-me dele como quem coloca em modo mute o barulho do mundo quando mergulha dentro d’água. O silêncio está preso na superfície, todas as vozes obnubiladas pelo som de lembranças, roc... roc... roc... Clareza.
Emerjo, a água tem sido ótima companhia desde que comecei a nadar. Me descobri bem nela, logo eu, que sou filho do fogo. Me descobri, o corpo nu, as costas nuas, as pernas duas, debatem-se vulneráveis.
Aconchego-me nessa placenta que ela me oferece e lembro.
Uma neném brigando, brincando com o resto de sobremesa com que a mãe, que conheci tão menina, lhe nutre. Seus olhinhos olham pra mim, sorri sem palavras. Sorri até sem sorriso. Sou rio.
Ela é chuva.
Somos a Terra.
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Essa foto seguramente foi tirada nas ruas do centro de Santiago, acho que em março de 2008. A câmera não lembro, fico devendo, e a cena é uma intervenção urbana porque as pessoas andam muito frias, acho que foi isso que explicou a humana que segura a placa à esquerda. Também ela seria feita de memória? Ela é um pedaço de mim. Só que é água, funde-se, esse pedaço indiscernível.
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De Memórias de minhas putas tristes, Gabriel García Marquez, tradução de Eric Nepomuceno, página marcada com uma orelhinha desde quando li e quis lembrar, pra sempre. Perdoe a transcrição longa, mas é tão saborosa quanto o petit gateau que a bebê de minha amiga saboreava ao meu lado ontem à noite:
“A casa renascia de suas cinzas e eu navegava no amor de Delgadina com uma intensidade e uma felicidade que jamais conheci em minha vida anterior. Graças a ela enfrentei pela primeira vez meu ser natural enquanto transcorriam meus noventa anos. Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco.
Virei outro. Tratei de reler os clássicos que me mandaram ler na adolescência, e não aguentei. Mergulhei nas letras românticas que tanto repudiei quando minha mãe quis me forçar a ler e gostar, e através delas tomei consciência de que a força invencível que impulsionou o mundo não foram os amores felizes e sim os contrariados. Quando meus gostos musicais entraram em crise me descobri atrasado e velho, e abri meu coração às delícias do acaso.
Me pergunto como pude sucumbir nesta vertigem perpétua que eu mesmo provocava e temia. Flutuava entre nuvens erráticas e falava sozinho diante do espelho com a vã ilusão de averiguar quem sou. Era tal meu desvairio, que em uma manifestação estudantil com pedras e garrafas tive que buscar forças na fraqueza para não me colocar na frente de todos com um letreiro que consagrasse minha verdade: Estou louco de amor”.
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Ternura abundante e de cortesia em sábados de chuva.
Todo mundo é um pouco espelho da lembrança dos outros.

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