
Os anjos, quando fugazes, sobrevoam qualquer espaço que não o coberto por um manto imaculado de Céu.
Percorrem ao invés uma Austrália árida – ou ávida – em busca do sagrado confiscado na crueza da favela de Paraisópolis, aqui em São Paulo.
Alma é essa personagem de “Paraíso Perdido”, o primeiro e até agora único romance que li do holandês Cees Nooteboom, de quem ouvi falar durante a participação que teve na edição da Flip do ano passado.
Anjo dos Jardins com asas despedaçadas fugindo de si própria, da lembrança do estupro sofrido quando uma nuvem de anjos negros rebelados se debruça sobre o capô de seu carro quebrado bem ali, onde garotas com ar indiferente têm sua inocência extirpada ao preço de um instante de má sorte.
Expulsa do paraíso, Alma voa até o outro lado do planeta à procura de esquecimento ou de alívio ou de redenção e o resto da história...
Imagine.
Numa calçada também eu redimi ilusões.
A foto tirada nalgum dia entre dezembro de 2007 e janeiro de 2008, novamente com a minha Cyber Shot de 5.2 megapixels, hoje fora de combate, reproduz, sem crop, um pedaço da calçada oposta ao apartamento onde John e Yoko viveram seu idílio ornamentado com a melhor vista para o Central Park.
Amar soa pasteurizado, mas atire a primeira flor quem não.
***
De uma epígrafe desse livro:
"[...] Disse Eva. E Adão ouviu-a complacente;
Mas não lhe respondeu, – que deles junto
O arcanjo estava já, e fulgurantes
Dos querubins os esquadrões desciam
Pelo declive do fronteiro monte,
Vindo com silenciosa ligeireza
Para a marcada posição guardarem.
(Dando ares de meteoro refulgente
Ou de névoa que à tarde se levanta
Do rio entre pauis manso correndo,
E vem seguindo ao lavrador os passos
Quando para a morada se recolhe.)
Mas não lhe respondeu, – que deles junto
O arcanjo estava já, e fulgurantes
Dos querubins os esquadrões desciam
Pelo declive do fronteiro monte,
Vindo com silenciosa ligeireza
Para a marcada posição guardarem.
(Dando ares de meteoro refulgente
Ou de névoa que à tarde se levanta
Do rio entre pauis manso correndo,
E vem seguindo ao lavrador os passos
Quando para a morada se recolhe.)
De Deusa espada à frente da coluna
Vem pelo éter brandindo acesa e fera,
Qual cometa, presságio de ruínas:
E logo com vapores abrasados,
Como os que reinam pela Líbia adusta,
Começou a queimar tão doce clima.
O arcanjo, que tal viu, toma apressado
Pela mão nossos pais que se demoram.
Do oriente até à porta assim os leva;
E, chegando à planície que se alonga
Fora do Éden, deixou-os e sumiu-se. [...]"
John Milton, Paradise Lost (décimo segundo canto)
Tradução de António José de Lima Leitão
***
Os dois Johns sussurram que é precisamente quando não há mais sonho que se pode começar a sonhar.

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