domingo, 27 de dezembro de 2009

A bailarina


Após ajeitar a neném suavemente no berço, Jô lembrou-se de sua mãe dizendo que criança recém-nascida tinha de ser deitada era de lado. Sorriu intimamente. Lembranças. Antes de sair para os afazeres do dia, deu uma leve balançada no berço. Embalar o sono de sua pequena bailarina. Contemplou as mãozinhas frágeis, ainda fechadas, que provavelmente ficavam na mesma posição quando ainda estavam dentro do útero, semanas antes. Pensou em coisas que as mãos da filha ainda fariam: em idade pré-escolar, apertando um lápis de cor sobre o papel quadriculado; depois, entrelaçadas às de algum rapazinho de boa índole, cabeças coladas ao som de música romântica; apreensivas, percorrendo a lista de aprovados no vestibular de 2028; no altar, recebendo um anel das mãos de seu futuro genro (aquele mesmo rapaz bonzinho, qual seria o nome dele?). Imaginou, então, esse ser minúsculo, que naquele momento dormia feito anjo sob seus olhos, um dia guardando o sono de outro ser minúsculo, exatamente como ela própria, sua mãe e sua avó haviam feito. O tempo é ciclo. Deixando um beijo miúdo, depositado com o indicador na bochecha de sua neném, Jô apagou a luz do quarto e saiu pé ante pé. A vida é uma dança, pensou.

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O quadro da foto, intitulado "The child's bath", datado de 1892, é de Mary Cassatt e pertence ao acervo do The Art Institute of Chicago, onde a foto foi tirada, em junho de 2009. Ainda estou impregnado de Natal.

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Hoje, cultivemos o deus Amor.

sábado, 7 de novembro de 2009

Blanche Neige














Tudo me é inteiramente desconhecido, nada me é suficientemente estranho.

Aqui em disfarce nesse sanatório limpo isento mascaro você tão volúvel, tão sábado.

Nesses dias infindáveis constantes me escondo em azul vileza loucura mansa rasa à beira, clara, estupefata, cansada, rasa árida vívida morta. Absurda.

Aqui no mundo cego onde tudo é branco e asséptico e definido e estúpido, sinto medo.
Na noite branca treva oculto o escuro o louco o tolo me vivifica intoxica cala fala saia, não quero não posso não sustento suporto não gosto. Gosto amargo de lírios sustento suporte fomento. Relembro.

Nesse manicômio nos escondemos nove noites negras loucos nos encontramos onde foi mesmo?, em seus olhos olhei-os bolas vítreas negras soltas presas meus olhos bolas foscas cinzas reflexo retorcido, impróprio, sujo, vi-me no seu. Reflexo exatamente em seus olhos, entre loucos e doentes e santos visava você e a voz sua rouca encontrava exalava medo meu teu amargo olhos nos seus preso vi-me lago largo reflexo lua próprio eu santo louco limpo Tejo solto fluido. Profundo. Mártir.

Em ala por nós habitada anjos vi alados presos suas asas cortadas livres voavam não precisavam do peso impenetrável da razão entre grades um nada e outro escuro pesados castelos, sanatório de pedra. Razão.

Nove novas luas claras redondas soltas fluidas me perco me solto me banho me Tejo desminto meu cedo meu mundo.

Paradoxo amor sutil sublime peso indisfarçável do medo na claridade asséptica terreno firme sólido rocha árido sem sementes dentes asas nada fluidos rumo restos dúvida respostas. O que é escuro e sombrio e fosco e o que é luminoso e raso e denso se a lua cheia clara flutua fluida alta solta em plena noite? Seus olhos negros vítreos pérolas vi-me espelho em seu medo susto amor mágoa saia volte goste aprenda estúpido sábado.

Nada me estranha conquanto nada me conheça.

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Ontem, noite de dança no Teatro Alfa, Branca de Neve com o Ballet Preljocaj, encerramento da temporada 2009. Luzes e trevas alternam-se numa dança infindável chamada amor. Vida, para alguns. Branca como a neve na mais negra noite. Anões high-tech fazem rapel, cambalhotas pelo ar, graça, madrasta má, veneno. Dançar para esquecer. Dançar de novo para lembrar.

A foto tirei com o meu celular do chão da entrada da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), em São Paulo, durante a exposição de Christian Lacroix, em outubro de 2009. Reflexo das luzes dos vitrais coloridos sobre o cinza do granito. Pisam no chão frio mas celebram a volta do sol .

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Ainda sobre o mesmo tema – razão e loucura, luz e cegueira, paralisação e movimento – transcrevo pequeno trecho de “Após o anoitecer”, de Haruki Murakami (Alfaguara, 2009), tradução de Lica Hashimoto:

“Depois, Shirakawa examina seu rosto refletido no espelho do banheiro. Por um longo tempo, ele se encara com um olhar fixo e severo, sem mover os músculos da face. As mãos estão apoiadas na pia do lavatório. Prende a respiração e fixa a atenção, sem piscar os olhos. Sua expectativa é que, agindo assim, outra coisa possa acontecer. O que está tentando fazer é tornar os sentimentos mais objetivos, nivelar a consciência, congelar temporariamente o raciocínio e brecar o tempo por alguns segundos. Ele quer fundir sua própria existência nesse cenário. Quer que tudo pareça um quadro neutro de natureza-morta”.

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Dançar é um afago que a gente faz pra si mesmo.

No kisses, não quis.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Et la lumière fut


Excitado pelo sabor daquele beijo, dali do sofá mesmo esticou o braço esquerdo até onde sua vontade conseguisse e tssss... apagou a vela.

E a luz se fez.

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Ontem fomos à Sala São Paulo, temporada OSESP 2009, Jornada de Cinema Silencioso. Filme da vez, “Études sur Paris” (França, 1928, por André Sauvage), musicado especialmente para esta jornada pelo compositor José A. Rezende de Almeida Prado, que assim fala de sua arte [transcrevi o trecho abaixo a partir do folder do evento, produzido pela Cinemateca Brasileira]:

“Para o tema romântico, simples de assimilar, eu pensei em Edith Piaf, essa genial cantora parisiense que personifica Paris, como nenhuma outra, aquela Paris maravilhosa que é a Cidade Luz. E Edith Piaf colocaria, se estivesse viva, no palco da OSESP, uma voz um pouco trêmula, uma voz assim de quem está chorando. E essa música chora um pouco”.

O filme mescla uma Paris burguesa, alegremente embriagada por seu verão e seus amantes, e outra Paris, suja, pobre, marginal e feia, sem dúvida mais curiosa que a dos cartões postais e dos filmes de amor, mas ontem permiti-me banhar apenas nas cenas felizes, com ilhas, eclusas, água, piscina, rio. O Sena é personagem central, velho, mudo.

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Foto tirada numa rua que corria em paralelo à margem de um riozinho em Treviso, 2004.

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Os Jardins de Luxembourg reluzem em branco e preto sob sol antigo. Cravo e cordas recriam “Plaisir d’amour”:

“Vem pra Paris comigo?”
“Já estamos lá”.

Sou grato aos irmãos Lumière porque eles inventaram o escurinho.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Respostas


Com os olhos da alma, lemos sinais invisíveis e por isso só começamos a enxergar quando nos damos conta de que não vemos. Eles, os sinais, que são ruídos e murmúrios e distorções da vista turva, cansada, enganada, nos dizem que transgressão e rompimento são nossos atalhos para a sobrevivência ou para a mudança, enquanto tradição e obediência são traições que cometemos contra nós mesmos e a cultura humana. Redenção é nos apoderarmos de nossa história e a recriarmos. Fé é agir. Se sobrevier uma recompensa por essa ação, a tomaremos por um milagre. Os sinais são ininterruptos, viajam o universo, estamos imersos nele.

Há um grande projeto conspirando aqui e agora, entre mim e você. Ele é bom e é simples. É uma estática inaudível, transparente, viajando o universo, espaço-tempo, amorfo, escuro, claro, banhando nossos corações e olhos e vozes e soluços. Graças a Deus, somos todos poeira cósmica.

Nossa sujeira diária só o é aos olhos dos incautos e nossa santidade superficial sintética corroída inventada morta também só o é aos olhos de outros, incautos também. Coerência é não pensar. Sensações são segredos que a alma não aguenta guardar para si e suspira para fora em nossos sonhos, sobre nós, para que a resgatemos, não porque precise de nós para a salvarmos, mas porque ela simplesmente gosta de nós. A alma tem uma razão que ela não suporta. Ela é feliz em sua ignorância porque a ignorância da alma aos olhos do universo é luz e a luz do universo aos olhos do homem santo artificial inventado morto é ignorância, e quem são os incautos?

Tudo é quase isso tudo, mas é bem mais simples, porque não tem as polaridades. Não há não-sim, bom-mau, sagrado-profano. Não é possível estar à esquerda ou à direita, a única física possível da alma é estar em todos os lugares. A verdade é dupla, ambígua, rasa. Toda consistência é falsa. Não há ortodoxias.

Não são concessões o que fazemos quando somos coerentes, conviver é viver em harmonia e de acordo com nossos desejos voláteis tolos. E os desejos são necessários para nossa sobrevivência, nossa propagação. Esse grande projeto imperialista do Eu. O amor não cede, ele simplesmente dá.

Não há contradições.

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Ontem fui assistir no Teatro Eva Herz ao monólogo “A alma imoral”, cujo texto foi adaptado por Clarice Niskier, que também o encena, a partir do livro homônimo de Nilton Bonder.

Fazia tempo que buscava respostas a várias questões afetivas e existenciais. A peça, como tudo o que nos acontece de melhor, fui ver por acaso. É praticamente textual na peça boa parte do que digo aqui.

Perguntaram-me logo após o espetáculo sobre o que ele tratava. Não soube dar uma resposta clara. É uma reflexão acerca de questões fundantes da cultura: ordem, transgressão, tradição, religião, Deus, lei, moral, ética, desejo.

Deveria ser promulgada uma lei obrigando todos os cidadãos a assistir a essa peça. Uma espécie de serviço militar, de vacina ou de tributo, um teatro por assim dizer compulsório.

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A foto foi tirada entre julho e agosto de 2004 com aquela câmera Sony digital, na pequena cidade de Rossano, Itália. Rolou um cropizinho básico só para emoldurar o tema.

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O texto abaixo também é obrigatório. Está em “O livro das ignorãças”, de Manoel de Barros:

“O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.
Seu olho exagera o azul.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os
ocasos”.

domingo, 26 de julho de 2009

Luzes tortas


A intensidade da semana que passa soa inversamente proporcional à perversidade do medo. Viver é também aventurar-se pelo que nos claustrofobiza. Correr o risco é diferente de vivê-lo porque vida é o que se deixa do lado de fora do lado de dentro do outro. E assim essa perversão segura e firme e mole e mórbida arrefece a terra como cometa sem órbita e trovoa o céu e luz.

Gozo criativo, sopa cósmica, labirinto estelar.

Jóias, raras e rendas e especiariais e patuás. Sal do Himalaia. Eclipse em Sobral.

Nesses céus radiantes do Brasil.

No Estadão de hoje (matéria intitulada Os lunáticos de Sobral, suplemento Aliás, por Ivan Marsiglia), Einstein agradece aos brasileiros, por intermédio de seu porta-voz Assis Chateaubriand, por terem na pequena cidade do interior do Ceará permitido a confirmação de sua teoria da relatividade quando uma expedição de cientistas britânicos veio em caravana fotografar seus céus durante um eclipse do sol em novembro de 1919 e constatou – essa é a minha parte preferida, uma poesia quântica por assim dizer – que “a massa dos corpos celestes deforma o espaço próximo a eles, de modo que um raio luminoso se curva para seguir tal deformação”. Esse grande espelho curvo que é o universo.

A luz se submete à deformidade inerente ao que ela não pode mudar.

Os planetas, sequer eles enxergam harmonia e constância em sua perpétua dança satelital insólita solitária sem tempo espaço ou nome.

Habitantes de um Brasil do início do século XX na iminência de um fim de mundo eclíptico acendiam velas e escondiam suas grávidas para evitar que seus rebentos nascessem nas trevas e esconjuravam os calhambeques e batiam panelas e afligiam-se com o fim dos tempos, que tempo é esse, o fim da ilusão controle ordem segurança Newton e Deus.

Todo conhecimento seria perverso, não fosse tolo e ofegante e ingênuo.

A ele prefiro qualquer crença de que me valha e esconder meus fetos e espantar o medo com o rufar de tambores e novenas e muitas, muitas cenas com harmonias e xotes e danças que espantam demônios e esse teatro raso naïve e impuro banhado de dia-a-dia e inspirado em coisas pequenas e feias e insignificantes aos olhos de Deus que compõem o mosaico distorcido, multicor e fosco a que chamamos vida. E ela é maior que a ciência porque ao contrário dela subverte o medo porque o olha em seus olhos e o exorciza em seu leito viscoso e inerte.

Big bang, universo em espelho, Criação sem segredos. Sete dias, noites ainda não havia, e a eternidade a contemplar as estrelas.

***

Quero crer que por providência divina fotografei também eu para poder mostrar aqui um reflexo de luz distorcida a navegar a concavidade do bean, grande feijão no Millenium Park, em Chicago, agora em julho de 2009. A câmera, não nego, é o meu celular mesmo e daí. A luz não distorce, cria nova realidade e nossas equações a transformam em poesia travestida de números. A luz destorce.

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ON BRECHT – EPILOGUE, da inacreditável Ute Lemper em seu CD “But one Day...”. Pareceu-me adequado ao que estamos refletindo e a um tempo excitante, mas conclamemos um sic, o tempo não existe, ele é só luz torta. E é bom assim. Tradução livre:

“Nesses tempos graves que morrem de rir
Por serem tomados por graves
Surpresos por sua tragédia
Desesperados por sua desatenção
Nesses tempos agudos
Tremendo por sinfonias de crimes e atos escandolosos
Criando contos e reportagens
Copiando mais e mais
Profundo demais é o medo de um futuro inexorável
E as palavras reduzem-se a nada face à verdade
As pessoas sofrem de fome do coração
Mas seus corações não sabem que estão famintas, tão famintas
Penas são imersas em sangue
Armas em tinta
Tudo o que não foi pensado está feito
E tudo que foi pensado é indizível”.

***

Tenho amor ao medo e ao horror. São per se o motor criativo da vida.
E estar vivo é tão bom, ainda que nesse universo torto e de alguma forma sem surpresas nem ilusões.

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Segue o link para a reportagem mencionada: http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,os-lunaticos-de-sobral,408286,0.htm

terça-feira, 21 de julho de 2009

Sob as nuvens

Relacionar-se é conhecer o outro por um dedo com que licenciosamente perfuramos seu umbigo, rompendo-lhe às vezes sôfrega, às vezes abruptamente a membrana retorcida que outrora cedeu lugar ao cordão de vida que o nutria e que possivelmente a reencontre. É dizer-lhe vem cá, escorregar suavemente o dedo ainda e sempre seu pela pele invertida ainda e sempre dele que o reveste, penetrar-lhe mais a fundo o interior do abdômen, descobrir-lhe ao avesso, contemplar o outro lado da lua que é lua também, apalpar-lhe a carne tenra, fresca, morna e úmida de lá de dentro, explorá-lo por esse telescópio submarino dáctil que tudo encontra e observa e arrasta pelo caminho verificando o valor de cada víscera; sentir a pulsação, entender o ritmo descompassado e único desse corpo que o torna indivíduo, mergulhar no escuro vermelho de dentro vasculhando o lugar que sua alma percorre errante, vielas de paralelepípedos de superfície brilhosa e refratária e irregular onde por vezes – a alma também se cansa de caminhar – ela senta-se para repousar, gozar, chorar, sentir dor, querer, fugir, beber, fumar, derramar, amar.




Conhecer o outro é tangenciá-lo por dentro.

É percorrer o solo onde a alma pisa, mas a alma é o que não está lá, ela por definição talvez seja o que ela não é. Estamos de acordo com isso, ou pelo menos temos em mãos ou melhor dizendo nas pontas dos dedos uma hipótese menos defensável que interessante: se o espaço é o que sobra entre dois sins, tocar o outro é saber-lhe o não, preenchendo-o com música, alimento, sopro. Bebendo talvez de volta a descoberta doce que se nos devolve, pois amar é troca, é ciclo. Amar é cio.

Olhar é enxergar com ternura singular o mesmo lado de dentro, mas fazê-lo por meio de ondas luminosas e frequências que como flechas certeiras propagam-se pelo ar. Com destinatário certo ou para um radar que as intercepte. Olhar é o vento e saber-se olhado é sentir a brisa. Farfalham bandeiras, agitam-se as copas das árvores, as ondas do oceano, e a areia, movem-se as nuvens e as folhas subtraídas aos galhos e os restos de copos plásticos sujos descartáveis partidos lançados ao vento, o vento varre e leva e traz de volta e beija. Olhar então é o verbo que ocupa espaços vazios, frio ar em movimento que penetra as frestas da janela, saia, da porta, da calça.

Olhar é o claro, tocar o escuro e os dois complementam-se, cumprimentam-se, fundem-se. Vento e vela, fogo e água, morte e vida, não e sim yang e yin.

Amar é flauta. Sopro, metal, dedos e música.

Olhar é, não menos, amar. Molhar.

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A imagem postada (chamei-a de "Vento") é uma composição feita a partir de fotografia tirada em uma festa de rua aqui em São Paulo e com matizes novas descobertas em Photoshop. Ano da foto, 2004.

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Do capítulo 10 do Bhagavad-Gita por Ramananda Prasad, tradução de Swami Krishnapriyananda Saraswati, (Dr. Olavo O. Desimon), disponível em http://www.gita-society.com/language/brazil_chapter10.htm:

“O Senhor Krishna disse: Ó Arjuna, escute mais uma vez estas palavras supremas que Eu irei falar para você, que é muito querido para Mim, para o seu bem [...]

Diferenciação, auto-conhecimento, não ilusão, perdão, honestidade, controle sobre a mente e os sentidos, tranquilidade, prazer, dor, nascimento, morte, medo, destemor, não-violência, equanimidade, contentamento, austeridade, caridade, fama, má fama – todas estas diversas qualidades humanas surgem unicamente de alguma coisa Minha [...]

Eu sou o Espírito supremo, que reside na psique interior de todos como alma (Atma). Eu, também, sou o criador, mantenedor e destruidor – ou o começo, o meio e o fim – de todos os seres [...]

Eu sou o sustentador. Entre as luminárias Eu sou o sol radiante; Eu sou o controlador do vento; entre as estrelas Eu sou a lua

Eu sou os Vedas. Eu sou o controlador celeste [...]

Eu sou o Senhor Shiva. Eu sou o deus da riqueza; Eu sou o deus do fogo e as montanhas [...]

Conheça-Me como o animal celestial entre os animais, e o Rei entre os homens. Eu sou o raio entre as armas, e Eu sou o cupido para a procriação

Eu sou o deus da água e das serpentes. Eu sou o controlador da morte. Eu sou o tempo ou a mortalidade entre os remédios; o leão entre os animais, e o rei dos pássaros entre os pássaros

Entre os purificadores Eu sou o vento, e entre os guerreiros Eu sou o Senhor Rama [...]

Ó Arjuna. Entre o conhecimento, Eu sou o conhecimento do Ser Supremo. Eu sou a lógica dos lógicos [...]

Eu sou a morte a que tudo devora, e também a origem dos futuros seres. Eu sou as sete deusas ou anjos guardiões que presidem as sete qualidades: fama, prosperidade, fala, memória, intelecto, decisão e perdão

Eu sou os védicos e outros hinos. Eu sou os mantras; Eu sou os meses de Novembro e Dezembro entre os meses;

e entre as estações Eu sou a primavera”.

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É bom unir-me ao vento, para ver, e à terra, para tatear.

Sopro, sopa, vida.

Gratidão infinita.

domingo, 19 de julho de 2009

Memórias da água

Memórias.

Na noite chuvosa de ontem, ex-colegas de faculdade reunidos para celebrar outro ano de vida de um de nós. Saudade sentada em torno à mesa, cadeiras em espelho, todo mundo é um pouco cópia de si mesmo.

Faz sentido, o tempo. Distancio-me dele como quem coloca em modo mute o barulho do mundo quando mergulha dentro d’água. O silêncio está preso na superfície, todas as vozes obnubiladas pelo som de lembranças, roc... roc... roc... Clareza.

Emerjo, a água tem sido ótima companhia desde que comecei a nadar. Me descobri bem nela, logo eu, que sou filho do fogo. Me descobri, o corpo nu, as costas nuas, as pernas duas, debatem-se vulneráveis.

Aconchego-me nessa placenta que ela me oferece e lembro.

Uma neném brigando, brincando com o resto de sobremesa com que a mãe, que conheci tão menina, lhe nutre. Seus olhinhos olham pra mim, sorri sem palavras. Sorri até sem sorriso. Sou rio.

Ela é chuva.

Somos a Terra.

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Essa foto seguramente foi tirada nas ruas do centro de Santiago, acho que em março de 2008. A câmera não lembro, fico devendo, e a cena é uma intervenção urbana porque as pessoas andam muito frias, acho que foi isso que explicou a humana que segura a placa à esquerda. Também ela seria feita de memória? Ela é um pedaço de mim. Só que é água, funde-se, esse pedaço indiscernível.

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De Memórias de minhas putas tristes, Gabriel García Marquez, tradução de Eric Nepomuceno, página marcada com uma orelhinha desde quando li e quis lembrar, pra sempre. Perdoe a transcrição longa, mas é tão saborosa quanto o petit gateau que a bebê de minha amiga saboreava ao meu lado ontem à noite:

“A casa renascia de suas cinzas e eu navegava no amor de Delgadina com uma intensidade e uma felicidade que jamais conheci em minha vida anterior. Graças a ela enfrentei pela primeira vez meu ser natural enquanto transcorriam meus noventa anos. Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco.

Virei outro. Tratei de reler os clássicos que me mandaram ler na adolescência, e não aguentei. Mergulhei nas letras românticas que tanto repudiei quando minha mãe quis me forçar a ler e gostar, e através delas tomei consciência de que a força invencível que impulsionou o mundo não foram os amores felizes e sim os contrariados. Quando meus gostos musicais entraram em crise me descobri atrasado e velho, e abri meu coração às delícias do acaso.

Me pergunto como pude sucumbir nesta vertigem perpétua que eu mesmo provocava e temia. Flutuava entre nuvens erráticas e falava sozinho diante do espelho com a vã ilusão de averiguar quem sou. Era tal meu desvairio, que em uma manifestação estudantil com pedras e garrafas tive que buscar forças na fraqueza para não me colocar na frente de todos com um letreiro que consagrasse minha verdade: Estou louco de amor”.

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Ternura abundante e de cortesia em sábados de chuva.

Todo mundo é um pouco espelho da lembrança dos outros.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Paradise lost


Os anjos, quando fugazes, sobrevoam qualquer espaço que não o coberto por um manto imaculado de Céu.

Percorrem ao invés uma Austrália árida – ou ávida – em busca do sagrado confiscado na crueza da favela de Paraisópolis, aqui em São Paulo.

Alma é essa personagem de “Paraíso Perdido”, o primeiro e até agora único romance que li do holandês Cees Nooteboom, de quem ouvi falar durante a participação que teve na edição da Flip do ano passado.

Anjo dos Jardins com asas despedaçadas fugindo de si própria, da lembrança do estupro sofrido quando uma nuvem de anjos negros rebelados se debruça sobre o capô de seu carro quebrado bem ali, onde garotas com ar indiferente têm sua inocência extirpada ao preço de um instante de má sorte.

Expulsa do paraíso, Alma voa até o outro lado do planeta à procura de esquecimento ou de alívio ou de redenção e o resto da história...

Imagine.

Numa calçada também eu redimi ilusões.

A foto tirada nalgum dia entre dezembro de 2007 e janeiro de 2008, novamente com a minha Cyber Shot de 5.2 megapixels, hoje fora de combate, reproduz, sem crop, um pedaço da calçada oposta ao apartamento onde John e Yoko viveram seu idílio ornamentado com a melhor vista para o Central Park.

Amar soa pasteurizado, mas atire a primeira flor quem não.

***

De uma epígrafe desse livro:

"[...] Disse Eva. E Adão ouviu-a complacente;
Mas não lhe respondeu, – que deles junto
O arcanjo estava já, e fulgurantes
Dos querubins os esquadrões desciam
Pelo declive do fronteiro monte,
Vindo com silenciosa ligeireza
Para a marcada posição guardarem.
(Dando ares de meteoro refulgente
Ou de névoa que à tarde se levanta
Do rio entre pauis manso correndo,
E vem seguindo ao lavrador os passos
Quando para a morada se recolhe.)

De Deusa espada à frente da coluna
Vem pelo éter brandindo acesa e fera,
Qual cometa, presságio de ruínas:
E logo com vapores abrasados,
Como os que reinam pela Líbia adusta,
Começou a queimar tão doce clima.

O arcanjo, que tal viu, toma apressado
Pela mão nossos pais que se demoram.
Do oriente até à porta assim os leva;
E, chegando à planície que se alonga
Fora do Éden, deixou-os e sumiu-se. [...]"

John Milton, Paradise Lost (décimo segundo canto)
Tradução de António José de Lima Leitão

***

Os dois Johns sussurram que é precisamente quando não há mais sonho que se pode começar a sonhar.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Abrir a janela

Ontem passei no Centro da Cultura Judaica, aqui em São Paulo. Exposição de Feco Hamburger, Sobre a Permanência. Estrelas cadentes? Rasgos estáticos num céu denim-jeans, estrelas flagradas em exposição longa para mostrar que o deserto, até o deserto, move-se "pleno de existência e transformação". Superfície lunar implorando por vida em torno do Mar Morto.

Movo-me, eu. Vou à janela, é tempo de enxergar além. (Re)abro aquela avistada em Veneza no ano de 2005 e captada por uma Cyber Shot (é), com banho de cor no Photoshop para tingi-la com o que eu sentia.

* * *

Do folder da exposição:

"Cavalgaram três dias, e lhe disse: Oh, rei do tempo e da substância e símbolo do século, na Babilônia me quiseste perder num labirinto de bronze com muitas escadas, portas e muros; agora o Poderoso achou por bem que eu te mostre o meu, onde não há escadas a subir, nem portas a forçar, nem cansativas galerias a percorrer, nem muros que te impeçam os passos".

Borges, "Os Dois Reis e os Dois Labirintos"

* * *

Tempo de deixar o ar entrar.


Janelas fitam o céu, vislumbram desertos, olham pra si.
Respiro.