
A intensidade da semana que passa soa inversamente proporcional à perversidade do medo. Viver é também aventurar-se pelo que nos claustrofobiza. Correr o risco é diferente de vivê-lo porque vida é o que se deixa do lado de fora do lado de dentro do outro. E assim essa perversão segura e firme e mole e mórbida arrefece a terra como cometa sem órbita e trovoa o céu e luz.
Gozo criativo, sopa cósmica, labirinto estelar.
Jóias, raras e rendas e especiariais e patuás. Sal do Himalaia. Eclipse em Sobral.
Nesses céus radiantes do Brasil.
No Estadão de hoje (matéria intitulada Os lunáticos de Sobral, suplemento Aliás, por Ivan Marsiglia), Einstein agradece aos brasileiros, por intermédio de seu porta-voz Assis Chateaubriand, por terem na pequena cidade do interior do Ceará permitido a confirmação de sua teoria da relatividade quando uma expedição de cientistas britânicos veio em caravana fotografar seus céus durante um eclipse do sol em novembro de 1919 e constatou – essa é a minha parte preferida, uma poesia quântica por assim dizer – que “a massa dos corpos celestes deforma o espaço próximo a eles, de modo que um raio luminoso se curva para seguir tal deformação”. Esse grande espelho curvo que é o universo.
A luz se submete à deformidade inerente ao que ela não pode mudar.
Os planetas, sequer eles enxergam harmonia e constância em sua perpétua dança satelital insólita solitária sem tempo espaço ou nome.
Habitantes de um Brasil do início do século XX na iminência de um fim de mundo eclíptico acendiam velas e escondiam suas grávidas para evitar que seus rebentos nascessem nas trevas e esconjuravam os calhambeques e batiam panelas e afligiam-se com o fim dos tempos, que tempo é esse, o fim da ilusão controle ordem segurança Newton e Deus.
Todo conhecimento seria perverso, não fosse tolo e ofegante e ingênuo.
A ele prefiro qualquer crença de que me valha e esconder meus fetos e espantar o medo com o rufar de tambores e novenas e muitas, muitas cenas com harmonias e xotes e danças que espantam demônios e esse teatro raso naïve e impuro banhado de dia-a-dia e inspirado em coisas pequenas e feias e insignificantes aos olhos de Deus que compõem o mosaico distorcido, multicor e fosco a que chamamos vida. E ela é maior que a ciência porque ao contrário dela subverte o medo porque o olha em seus olhos e o exorciza em seu leito viscoso e inerte.
Big bang, universo em espelho, Criação sem segredos. Sete dias, noites ainda não havia, e a eternidade a contemplar as estrelas.
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Quero crer que por providência divina fotografei também eu para poder mostrar aqui um reflexo de luz distorcida a navegar a concavidade do bean, grande feijão no Millenium Park, em Chicago, agora em julho de 2009. A câmera, não nego, é o meu celular mesmo e daí. A luz não distorce, cria nova realidade e nossas equações a transformam em poesia travestida de números. A luz destorce.
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ON BRECHT – EPILOGUE, da inacreditável Ute Lemper em seu CD “But one Day...”. Pareceu-me adequado ao que estamos refletindo e a um tempo excitante, mas conclamemos um sic, o tempo não existe, ele é só luz torta. E é bom assim. Tradução livre:
“Nesses tempos graves que morrem de rir
Por serem tomados por graves
Surpresos por sua tragédia
Desesperados por sua desatenção
Nesses tempos agudos
Tremendo por sinfonias de crimes e atos escandolosos
Criando contos e reportagens
Copiando mais e mais
Profundo demais é o medo de um futuro inexorável
E as palavras reduzem-se a nada face à verdade
As pessoas sofrem de fome do coração
Mas seus corações não sabem que estão famintas, tão famintas
Penas são imersas em sangue
Armas em tinta
Tudo o que não foi pensado está feito
E tudo que foi pensado é indizível”.
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Tenho amor ao medo e ao horror. São per se o motor criativo da vida.
E estar vivo é tão bom, ainda que nesse universo torto e de alguma forma sem surpresas nem ilusões.
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Segue o link para a reportagem mencionada: http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,os-lunaticos-de-sobral,408286,0.htm




