domingo, 26 de julho de 2009

Luzes tortas


A intensidade da semana que passa soa inversamente proporcional à perversidade do medo. Viver é também aventurar-se pelo que nos claustrofobiza. Correr o risco é diferente de vivê-lo porque vida é o que se deixa do lado de fora do lado de dentro do outro. E assim essa perversão segura e firme e mole e mórbida arrefece a terra como cometa sem órbita e trovoa o céu e luz.

Gozo criativo, sopa cósmica, labirinto estelar.

Jóias, raras e rendas e especiariais e patuás. Sal do Himalaia. Eclipse em Sobral.

Nesses céus radiantes do Brasil.

No Estadão de hoje (matéria intitulada Os lunáticos de Sobral, suplemento Aliás, por Ivan Marsiglia), Einstein agradece aos brasileiros, por intermédio de seu porta-voz Assis Chateaubriand, por terem na pequena cidade do interior do Ceará permitido a confirmação de sua teoria da relatividade quando uma expedição de cientistas britânicos veio em caravana fotografar seus céus durante um eclipse do sol em novembro de 1919 e constatou – essa é a minha parte preferida, uma poesia quântica por assim dizer – que “a massa dos corpos celestes deforma o espaço próximo a eles, de modo que um raio luminoso se curva para seguir tal deformação”. Esse grande espelho curvo que é o universo.

A luz se submete à deformidade inerente ao que ela não pode mudar.

Os planetas, sequer eles enxergam harmonia e constância em sua perpétua dança satelital insólita solitária sem tempo espaço ou nome.

Habitantes de um Brasil do início do século XX na iminência de um fim de mundo eclíptico acendiam velas e escondiam suas grávidas para evitar que seus rebentos nascessem nas trevas e esconjuravam os calhambeques e batiam panelas e afligiam-se com o fim dos tempos, que tempo é esse, o fim da ilusão controle ordem segurança Newton e Deus.

Todo conhecimento seria perverso, não fosse tolo e ofegante e ingênuo.

A ele prefiro qualquer crença de que me valha e esconder meus fetos e espantar o medo com o rufar de tambores e novenas e muitas, muitas cenas com harmonias e xotes e danças que espantam demônios e esse teatro raso naïve e impuro banhado de dia-a-dia e inspirado em coisas pequenas e feias e insignificantes aos olhos de Deus que compõem o mosaico distorcido, multicor e fosco a que chamamos vida. E ela é maior que a ciência porque ao contrário dela subverte o medo porque o olha em seus olhos e o exorciza em seu leito viscoso e inerte.

Big bang, universo em espelho, Criação sem segredos. Sete dias, noites ainda não havia, e a eternidade a contemplar as estrelas.

***

Quero crer que por providência divina fotografei também eu para poder mostrar aqui um reflexo de luz distorcida a navegar a concavidade do bean, grande feijão no Millenium Park, em Chicago, agora em julho de 2009. A câmera, não nego, é o meu celular mesmo e daí. A luz não distorce, cria nova realidade e nossas equações a transformam em poesia travestida de números. A luz destorce.

***

ON BRECHT – EPILOGUE, da inacreditável Ute Lemper em seu CD “But one Day...”. Pareceu-me adequado ao que estamos refletindo e a um tempo excitante, mas conclamemos um sic, o tempo não existe, ele é só luz torta. E é bom assim. Tradução livre:

“Nesses tempos graves que morrem de rir
Por serem tomados por graves
Surpresos por sua tragédia
Desesperados por sua desatenção
Nesses tempos agudos
Tremendo por sinfonias de crimes e atos escandolosos
Criando contos e reportagens
Copiando mais e mais
Profundo demais é o medo de um futuro inexorável
E as palavras reduzem-se a nada face à verdade
As pessoas sofrem de fome do coração
Mas seus corações não sabem que estão famintas, tão famintas
Penas são imersas em sangue
Armas em tinta
Tudo o que não foi pensado está feito
E tudo que foi pensado é indizível”.

***

Tenho amor ao medo e ao horror. São per se o motor criativo da vida.
E estar vivo é tão bom, ainda que nesse universo torto e de alguma forma sem surpresas nem ilusões.

***

Segue o link para a reportagem mencionada: http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,os-lunaticos-de-sobral,408286,0.htm

terça-feira, 21 de julho de 2009

Sob as nuvens

Relacionar-se é conhecer o outro por um dedo com que licenciosamente perfuramos seu umbigo, rompendo-lhe às vezes sôfrega, às vezes abruptamente a membrana retorcida que outrora cedeu lugar ao cordão de vida que o nutria e que possivelmente a reencontre. É dizer-lhe vem cá, escorregar suavemente o dedo ainda e sempre seu pela pele invertida ainda e sempre dele que o reveste, penetrar-lhe mais a fundo o interior do abdômen, descobrir-lhe ao avesso, contemplar o outro lado da lua que é lua também, apalpar-lhe a carne tenra, fresca, morna e úmida de lá de dentro, explorá-lo por esse telescópio submarino dáctil que tudo encontra e observa e arrasta pelo caminho verificando o valor de cada víscera; sentir a pulsação, entender o ritmo descompassado e único desse corpo que o torna indivíduo, mergulhar no escuro vermelho de dentro vasculhando o lugar que sua alma percorre errante, vielas de paralelepípedos de superfície brilhosa e refratária e irregular onde por vezes – a alma também se cansa de caminhar – ela senta-se para repousar, gozar, chorar, sentir dor, querer, fugir, beber, fumar, derramar, amar.




Conhecer o outro é tangenciá-lo por dentro.

É percorrer o solo onde a alma pisa, mas a alma é o que não está lá, ela por definição talvez seja o que ela não é. Estamos de acordo com isso, ou pelo menos temos em mãos ou melhor dizendo nas pontas dos dedos uma hipótese menos defensável que interessante: se o espaço é o que sobra entre dois sins, tocar o outro é saber-lhe o não, preenchendo-o com música, alimento, sopro. Bebendo talvez de volta a descoberta doce que se nos devolve, pois amar é troca, é ciclo. Amar é cio.

Olhar é enxergar com ternura singular o mesmo lado de dentro, mas fazê-lo por meio de ondas luminosas e frequências que como flechas certeiras propagam-se pelo ar. Com destinatário certo ou para um radar que as intercepte. Olhar é o vento e saber-se olhado é sentir a brisa. Farfalham bandeiras, agitam-se as copas das árvores, as ondas do oceano, e a areia, movem-se as nuvens e as folhas subtraídas aos galhos e os restos de copos plásticos sujos descartáveis partidos lançados ao vento, o vento varre e leva e traz de volta e beija. Olhar então é o verbo que ocupa espaços vazios, frio ar em movimento que penetra as frestas da janela, saia, da porta, da calça.

Olhar é o claro, tocar o escuro e os dois complementam-se, cumprimentam-se, fundem-se. Vento e vela, fogo e água, morte e vida, não e sim yang e yin.

Amar é flauta. Sopro, metal, dedos e música.

Olhar é, não menos, amar. Molhar.

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A imagem postada (chamei-a de "Vento") é uma composição feita a partir de fotografia tirada em uma festa de rua aqui em São Paulo e com matizes novas descobertas em Photoshop. Ano da foto, 2004.

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Do capítulo 10 do Bhagavad-Gita por Ramananda Prasad, tradução de Swami Krishnapriyananda Saraswati, (Dr. Olavo O. Desimon), disponível em http://www.gita-society.com/language/brazil_chapter10.htm:

“O Senhor Krishna disse: Ó Arjuna, escute mais uma vez estas palavras supremas que Eu irei falar para você, que é muito querido para Mim, para o seu bem [...]

Diferenciação, auto-conhecimento, não ilusão, perdão, honestidade, controle sobre a mente e os sentidos, tranquilidade, prazer, dor, nascimento, morte, medo, destemor, não-violência, equanimidade, contentamento, austeridade, caridade, fama, má fama – todas estas diversas qualidades humanas surgem unicamente de alguma coisa Minha [...]

Eu sou o Espírito supremo, que reside na psique interior de todos como alma (Atma). Eu, também, sou o criador, mantenedor e destruidor – ou o começo, o meio e o fim – de todos os seres [...]

Eu sou o sustentador. Entre as luminárias Eu sou o sol radiante; Eu sou o controlador do vento; entre as estrelas Eu sou a lua

Eu sou os Vedas. Eu sou o controlador celeste [...]

Eu sou o Senhor Shiva. Eu sou o deus da riqueza; Eu sou o deus do fogo e as montanhas [...]

Conheça-Me como o animal celestial entre os animais, e o Rei entre os homens. Eu sou o raio entre as armas, e Eu sou o cupido para a procriação

Eu sou o deus da água e das serpentes. Eu sou o controlador da morte. Eu sou o tempo ou a mortalidade entre os remédios; o leão entre os animais, e o rei dos pássaros entre os pássaros

Entre os purificadores Eu sou o vento, e entre os guerreiros Eu sou o Senhor Rama [...]

Ó Arjuna. Entre o conhecimento, Eu sou o conhecimento do Ser Supremo. Eu sou a lógica dos lógicos [...]

Eu sou a morte a que tudo devora, e também a origem dos futuros seres. Eu sou as sete deusas ou anjos guardiões que presidem as sete qualidades: fama, prosperidade, fala, memória, intelecto, decisão e perdão

Eu sou os védicos e outros hinos. Eu sou os mantras; Eu sou os meses de Novembro e Dezembro entre os meses;

e entre as estações Eu sou a primavera”.

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É bom unir-me ao vento, para ver, e à terra, para tatear.

Sopro, sopa, vida.

Gratidão infinita.

domingo, 19 de julho de 2009

Memórias da água

Memórias.

Na noite chuvosa de ontem, ex-colegas de faculdade reunidos para celebrar outro ano de vida de um de nós. Saudade sentada em torno à mesa, cadeiras em espelho, todo mundo é um pouco cópia de si mesmo.

Faz sentido, o tempo. Distancio-me dele como quem coloca em modo mute o barulho do mundo quando mergulha dentro d’água. O silêncio está preso na superfície, todas as vozes obnubiladas pelo som de lembranças, roc... roc... roc... Clareza.

Emerjo, a água tem sido ótima companhia desde que comecei a nadar. Me descobri bem nela, logo eu, que sou filho do fogo. Me descobri, o corpo nu, as costas nuas, as pernas duas, debatem-se vulneráveis.

Aconchego-me nessa placenta que ela me oferece e lembro.

Uma neném brigando, brincando com o resto de sobremesa com que a mãe, que conheci tão menina, lhe nutre. Seus olhinhos olham pra mim, sorri sem palavras. Sorri até sem sorriso. Sou rio.

Ela é chuva.

Somos a Terra.

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Essa foto seguramente foi tirada nas ruas do centro de Santiago, acho que em março de 2008. A câmera não lembro, fico devendo, e a cena é uma intervenção urbana porque as pessoas andam muito frias, acho que foi isso que explicou a humana que segura a placa à esquerda. Também ela seria feita de memória? Ela é um pedaço de mim. Só que é água, funde-se, esse pedaço indiscernível.

***

De Memórias de minhas putas tristes, Gabriel García Marquez, tradução de Eric Nepomuceno, página marcada com uma orelhinha desde quando li e quis lembrar, pra sempre. Perdoe a transcrição longa, mas é tão saborosa quanto o petit gateau que a bebê de minha amiga saboreava ao meu lado ontem à noite:

“A casa renascia de suas cinzas e eu navegava no amor de Delgadina com uma intensidade e uma felicidade que jamais conheci em minha vida anterior. Graças a ela enfrentei pela primeira vez meu ser natural enquanto transcorriam meus noventa anos. Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco.

Virei outro. Tratei de reler os clássicos que me mandaram ler na adolescência, e não aguentei. Mergulhei nas letras românticas que tanto repudiei quando minha mãe quis me forçar a ler e gostar, e através delas tomei consciência de que a força invencível que impulsionou o mundo não foram os amores felizes e sim os contrariados. Quando meus gostos musicais entraram em crise me descobri atrasado e velho, e abri meu coração às delícias do acaso.

Me pergunto como pude sucumbir nesta vertigem perpétua que eu mesmo provocava e temia. Flutuava entre nuvens erráticas e falava sozinho diante do espelho com a vã ilusão de averiguar quem sou. Era tal meu desvairio, que em uma manifestação estudantil com pedras e garrafas tive que buscar forças na fraqueza para não me colocar na frente de todos com um letreiro que consagrasse minha verdade: Estou louco de amor”.

***

Ternura abundante e de cortesia em sábados de chuva.

Todo mundo é um pouco espelho da lembrança dos outros.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Paradise lost


Os anjos, quando fugazes, sobrevoam qualquer espaço que não o coberto por um manto imaculado de Céu.

Percorrem ao invés uma Austrália árida – ou ávida – em busca do sagrado confiscado na crueza da favela de Paraisópolis, aqui em São Paulo.

Alma é essa personagem de “Paraíso Perdido”, o primeiro e até agora único romance que li do holandês Cees Nooteboom, de quem ouvi falar durante a participação que teve na edição da Flip do ano passado.

Anjo dos Jardins com asas despedaçadas fugindo de si própria, da lembrança do estupro sofrido quando uma nuvem de anjos negros rebelados se debruça sobre o capô de seu carro quebrado bem ali, onde garotas com ar indiferente têm sua inocência extirpada ao preço de um instante de má sorte.

Expulsa do paraíso, Alma voa até o outro lado do planeta à procura de esquecimento ou de alívio ou de redenção e o resto da história...

Imagine.

Numa calçada também eu redimi ilusões.

A foto tirada nalgum dia entre dezembro de 2007 e janeiro de 2008, novamente com a minha Cyber Shot de 5.2 megapixels, hoje fora de combate, reproduz, sem crop, um pedaço da calçada oposta ao apartamento onde John e Yoko viveram seu idílio ornamentado com a melhor vista para o Central Park.

Amar soa pasteurizado, mas atire a primeira flor quem não.

***

De uma epígrafe desse livro:

"[...] Disse Eva. E Adão ouviu-a complacente;
Mas não lhe respondeu, – que deles junto
O arcanjo estava já, e fulgurantes
Dos querubins os esquadrões desciam
Pelo declive do fronteiro monte,
Vindo com silenciosa ligeireza
Para a marcada posição guardarem.
(Dando ares de meteoro refulgente
Ou de névoa que à tarde se levanta
Do rio entre pauis manso correndo,
E vem seguindo ao lavrador os passos
Quando para a morada se recolhe.)

De Deusa espada à frente da coluna
Vem pelo éter brandindo acesa e fera,
Qual cometa, presságio de ruínas:
E logo com vapores abrasados,
Como os que reinam pela Líbia adusta,
Começou a queimar tão doce clima.

O arcanjo, que tal viu, toma apressado
Pela mão nossos pais que se demoram.
Do oriente até à porta assim os leva;
E, chegando à planície que se alonga
Fora do Éden, deixou-os e sumiu-se. [...]"

John Milton, Paradise Lost (décimo segundo canto)
Tradução de António José de Lima Leitão

***

Os dois Johns sussurram que é precisamente quando não há mais sonho que se pode começar a sonhar.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Abrir a janela

Ontem passei no Centro da Cultura Judaica, aqui em São Paulo. Exposição de Feco Hamburger, Sobre a Permanência. Estrelas cadentes? Rasgos estáticos num céu denim-jeans, estrelas flagradas em exposição longa para mostrar que o deserto, até o deserto, move-se "pleno de existência e transformação". Superfície lunar implorando por vida em torno do Mar Morto.

Movo-me, eu. Vou à janela, é tempo de enxergar além. (Re)abro aquela avistada em Veneza no ano de 2005 e captada por uma Cyber Shot (é), com banho de cor no Photoshop para tingi-la com o que eu sentia.

* * *

Do folder da exposição:

"Cavalgaram três dias, e lhe disse: Oh, rei do tempo e da substância e símbolo do século, na Babilônia me quiseste perder num labirinto de bronze com muitas escadas, portas e muros; agora o Poderoso achou por bem que eu te mostre o meu, onde não há escadas a subir, nem portas a forçar, nem cansativas galerias a percorrer, nem muros que te impeçam os passos".

Borges, "Os Dois Reis e os Dois Labirintos"

* * *

Tempo de deixar o ar entrar.


Janelas fitam o céu, vislumbram desertos, olham pra si.
Respiro.