Ir até o outro lado e depois voltar e não ter saído do lugar.
A Pinacoteca lotada curva-se perante a grandeza uma gente que recria a si mesma na arte, como o arado que revolve a terra para nela fazer renascer o alimento.
No palco improvisado, o balé Yuba celebra o encontro do particular com o universal. A dança revela a consciência de seus corpos em luta contra as ondas de Sapporo, no norte do Japão. Logo em seguida, põem-se a representar nosso tradicional casamento caipira, com direito a noiva, padre e bandeirinhas, caleidoscópio sincrético multicor a exalar o cheiro do mato ouriçado pelo vendaval que anuncia a chuva, que faz o rio, que desagua no oceano, que banha o Japão...
Partem de casa de manhã bem cedinho. Chegam de ônibus fretado ao centro de São Paulo, vestem-se para a dança, a cabeça altiva, orgulhosos do que são. Saúdam a fotógrafa que lhes compreendeu, deu-lhes voz e rosto, e no final do dia retornam, em paz, para a terra que dá abrigo e raiz. Soldados cansados, as roupas dos noivos dobradas com cuidado e guardadas na sacola plástica até a próxima apresentação, sob os pés as lembranças, no coração o dever cumprido.
Mês de maio, mês das noivas, não é senão curioso que a rua delas fique logo ali, quase em frente à Pinacoteca, atravessando a Avenida Tiradentes.
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Começar pela minha aldeia, preconiza Tolstói. Lucille Kanzawa (con)viveu, fotografou e escreveu sua experiência na comunidade nipo-brasileira do interior do Estado de São Paulo, e depois registrou tudo no livro Yuba, lançado em 2010 pela Terra Virgem.
“Akiko Ohara estava linda naquele dezembro de 1961. O próprio Isamu Yuba viera buscá-los, a ela e seu marido Hisao, no cais de Santos. Ela de salto alto, toda maquiada, vestindo a última moda em Tóquio, como convinha a uma grande dançarina, parceira de Kazuo Ohno e Tatsumi Hijikata. Tinha 26 anos e nunca havia saído do Japão. Ao pisar em solo Yuba, Akiko descobriu-se no meio do nada, debaixo de um sol cujo calor desconhecia e cercada de gente de pele tostada e riso fácil. ‘Nunca havia visto pessoas como aquelas na minha vida’, diz”. (Trecho extraído da obra)
Trabalho precioso, coalhado de imagens captadas pela objetiva subjetiva que retratou a beleza presente em delicados rostos femininos carpindo a roça, na preparação do corpo para a dança, no casal de noivos caminhando sobre a grama. Para onde vão, fico curioso em saber.
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A foto acima foi tirada em 2004, na Itália (também eu sou um brasileiro que veio de algum lugar para compor esse mosaico maravilhoso a que chamamos nossa nação), mas que importa o caminho se é em encontro ao seu destino que o casal caminha.
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Entoar nosso country latino caipira indolente malicioso delicioso, só nosso, ainda que de olhos rasgados, e só.
Dançar é ir até o outro lado e depois voltar e não ter saído do lugar.


Luiz,
ResponderExcluirCom este maravilhoso texto vc conseguiu engrandecer ainda mais um dos momentos mais emocionantes e importantes de minha vida.
Foi uma honra me ver citada em teu blog!
Um abraço e muitíssimo obrigada!
Lucille