quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O que você pensa do que você pensa?


















Valores são remédios metafísicos para dores do mundo.

Morte por apedrejamento por adultério não é objeto dos direitos humanos. A vida só o é dependendo do referencial. Questionar se ando armado não é legítimo, se mato também não. Meus motivos minha ruína meus medos o são.

Mulheres covardemente surradas, mortas, banidas, presas, amordaçadas, caladas. Inconsciente severamente reprimido, segredos guardados a sete chaves. Desfalque. Recalque.

Não ter propostas de governo, não discutir erros e acertos políticos, não trazer estratégias à luz. Denunciar uma possível duvidosa eventual infrutífera invasão de dados, números, bens. Este é um crime. Desviar todo um País de um debate amplo, claro e democrático, sobre coisas que realmente interessam, educação, saúde, emprego, crescimento, pré-sal, falar sério, convidar à reflexão. Subtrair nosso direito a discutir o que é relevante não é crime.

***

Amordaçar a democracia é crime.  Furtar-me ao debate do que é relevante ao meu povo é furto de seu direito à informação. Usurpar meu espaço na mídia para caluniar, confundir e destruir é usurpação de bens coletivos. Reduzir o objeto do debate nacional é me tornar menos, me fazer menor. Encolher. Diminuir a democracia até que ela caiba na ponta do meu bico longo e duro e com ele triturá-la, reduzi-la a farelo, então a pó, então a nada, para que no nada eu possa reinar, ser rei de coisa nenhuma, é crime contra um povo, um País, uma história para a qual não vou entrar. E comê-la como quem rói osso ruim é a minha desforra. Minha inveja é minha desforra. Ela destrói, rói, desmonta, aniquila, corrói, eu sou fraco, eu sou impotente, eu sou azul e amarelo e feio e pequeno e inseguro e idiota e careca e manco e ardiloso e fútil e vazio e fétido e pútrido e invejoso e infiel como a morte. Eu sou um corvo. Eu sou covarde. Eu me alio ao que vem das trevas, ao que exala podridão, ao que destrói, ao que é oculto, vazio e oco. Eu sou o nada e tomo seu voto, sua carteira, sua liberdade, suas chances, seu futuro.

***

A foto foi tirada há alguns anos, vitrine de onde se vende ilusões. Compre minhas mentiras baratas.

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A canção cuja letra reproduzo abaixo é de Jane Birkin e representa um grito pela vida de Aung San Suu Kyi, birmanesa ganhadora de um Nobel da Paz (1991), hoje prisioneira do governo de Myanmar por sua oposição ao regime ditatorial de seu País. Dedico então o post de hoje a todas as Suu Kyis, Sakinehs, Dilmas e a todas as coisas vergonhosas, injustas, humilhantes e cruéis que imputam a elas, às mulheres e à democracia. Mas não é à toa que a justiça tem corpo de mulher e que paz se grafe igualmente no feminino.

Aung San Suu Kyi will be gone and
She'll be on a T-shirt
The marketing's good

Monks are dying
Soldier children crying
We're playing bubbles
With four years old curls

Torture, drug deals
Finance our dreams
Why should we care ?
The stock market's good

Petrol's booming
Generals' wooing
Trucks are looming
In Rangoon

We know your faces
Come out and die
And welcome the
Tourist under the
Burmese sky

But tomorrow Christine and
Me will feel just the same
With our china tea

2008. "Amnesty report". Burma
The eighth to the eighth of eighty eight the people's uprising was bloodily and brutally repressed by the military junte
Twenty years of prison and torture would follow
In 1990 Aung San Suu Kyi and her Democratic Party
Won the general election by eighty three per cent
In 1991 she won the Nobel peace price
Seventy thousand children are soldiers
Ten children out of a hundred don't get to live to five years old

Aung San Suu Kyi will be gone and
She'll be on a T-shirt
The marketing's good

Monks are dying
Soldier children crying
We're playing bubbles
With four years old curls

But tomorrow Christine and
Me will feel just the same
Maybe shed a tear in our china tea

But tomorrow the world will see
We did nothing for Aung San Suu Kyi

2008 Amnesty report, Burma :
Birma is one of the poorest countries in the world but one of the richest in jewels, drugs, teck, petrol, natural gas, Total's pipe lines give the military junte more than a million dollars a day.
Birma has one of the worst records for child mortality and aids.
The international comity of the Red Cross withdrew from Burma because it could not fulfil its mission.
No one knows the numbers of the tortured, the numbers of the dead.

This song is dedicated to Aung San Suu Kyi, her democratic party,
the monks, the students, the people of Burma, the children.
This is a plea For Aung San Suu Kyi.

(Aung San Suu Kyi, by Jane Birkin. Álbum Enfants d’hiver. Capitol Music, 2008)

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Quais são seus valores?

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Meias-palavras (ou conversa sobre o tempo)


Meias palavras são sem-palavras, mentiras têm os pés descalços.

O que acontece é mais ou menos assim: no começo do fim, o Sol inflamar-se-á. Como consequência, é tudo verdade, a Terra incendiar-se-á. Após o fogo – brilho que consome – ceifar a toda a vida, o astro-rei encolherá, e encolherá, e então morrerá, pequeno, velho, frio e embriagado e inútil e, por fim, no gelo permaneceremos enquanto durarem os últimos dias de nossa eternidade.

A verdade, saiba, a verdade é que o final do tempo, falando abertamente, é uma constatação matemática. E coincide com o final do espaço, tempo e espaço devorados por uma boca desdentada e muda, sugados simultaneamente por um buraco negro inexorável e terrífico. O universo também encontrará seu próprio fim, é questão de tempo.

Engolirá a si próprio, feroz, faminto, suicida.

Que vontade de rir!

Há também beleza na autofagia das estrelas sós em sua vivência meteórica, devoradoras recíprocas em seu fim, auto-consumíveis apaixonadas antropófagas canibais. Não há modo mais belo de acabar com tudo!  

Meias-palavras para descrever o fim. Olha a que pé chegamos, justificando os meios. O passado não existirá no futuro, este se auto-aniquilará. É o que estrelas mortas fazem.

Seu brilho viaja o universo, no espaço atravessa a imensidão escura e fria numa velocidade que, desafiando o tempo, nos traz uma mensagem do que não mais há.

É tanto quanto afirmar que, no futuro, o passado não existirá. Já não existe.

O passado será descalças palavras meias furadas enfeites, espectro

Lispector

A eternidade também tem fim.

Se tudo terminará, e terminará

Para quê a pressa, o mapa a bússola o choque o susto a morte a vida o tempo

Não há, não há

Se tudo terminará, o que importa a porca a porta o centro o lado a meta o sul o norte a morte

São perguntas, são palavras-meias, respostas não, não tenho sinceramente respostas são perguntas sinceras meias verdades inteiras

A eternidade é manchete, é mancha, também tem fim! Além do universo reside o nada, depois que ele engole a si próprio é também ele o nada.

E bebemos seu leito caudaloso e negro, palavras engolidas de nós mesmos, ferozes, famintos, nervosos, suicidas.

A matemática é uma palavra inteira. Fora dela, todas as palavras são meias verdades.

OK, você pode contra-argumentar com a outra metade das suas palavras, antes do fim dos fins temos o meio a meia inteira

Tem tudo aqui, Manoel de Barros, rio e peixe e pantanal, cidades inteiras e carros e motos e PC’s e crime e frio e chuva e globo e coréias e vulcões e lava e lama e fogo e estrela e cinema e tema e livro e riso e choro e vida vida vida vida ainda que mesma ainda que resma ainda que viva

E a política é a arte das meias-palavras também, porque depois dela vem a ação e o fim justifica os meios.

Ou no princípio não seria o verbo.

E no mundo até podemos pagar meia-entrada mas a saída é sempre inteira.

Nós, tão cheios de nossas opiniões notáveis, lugares-comuns em pele de verdade nova, nossa arrogância, nossas mentiras inteiras estúpidas de nós mesmos.

Em seu grand finale
O universo vestido a rigor, curva-se sensibilizado ao agradecer os aplausos do nada


***

Lindo, lindo. Assisti a um programa, episódio da série The Universe, primeira temporada. Conta como um dia tudo acabará. O sol inchará como um balão, devorará Mercúrio assim, tlec, num estalar dos dedos, e em seguida Vênus será o segundo planeta a ser aniquilado, esquentará e inflará tanto que chegará próximo à Terra, que, chamuscada, derreterá em sua crosta como carvão em brasa.  Depois de espalhar calor infernal e brilho cegante em sua ira, o sol, com suas tensões assim esvaziadas, começará o caminho de volta, murchará, e murchará, e murchará até perder seu calor e então tudo, absolutamente tudo, congelará. Não precisa tirar as crianças e os vulneráveis da frente do computador, esse lindo ballet só acontecerá daqui a 5 bilhões de anos!

Acho essa verdade absurda matemática exata concisa precisa linda, parece poesia, parece música, mas é ciência que premedita o fim. No final, o Jalapão, o Irã, nós, nada voará pelo ar. Antes, seremos derretidos na grande caldeira que se tornará a Terra.

Como tentei dizer, vida é tudo o que sobra aqui no meio. E aqui no meio tem tudo o que eu já vivi, e ele importa, porque é tudo o que eu sinto.

***

A foto é o resultado de um monte de meias-calças (socorro, qual o plural disso??) esmagadas contra a vitrine de uma loja da Galeria Ouro Fino, na Rua Augusta, lá por 2004, acho. Lembram-me as imagens do telescópio Hubble apanhadas em seu silencioso voo entre as estrelas a flagrar cores, estrelas nuas, exuberância galáctica nos jardins infinitos do Céu.

***

O caos é belo.
O caos é causa.

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A canção transcrita abaixo é campeã de audiência (ei, não deveria ser “de audição”?) no meu iTunes. Adelle, Chasing Pavements.

E olhem que lindo o clip dela em http://www.youtube.com/watch?v=uBmwdlBFs1s.

I've made up my mind
No need to think it over
If I'm wrong I ain't right
No need to look no further
This ain't lust
This is love but

If I tell the world
I'll never say enough
Because it was not said to you
And that's exactly what I need to do
If I'm in love with you

Should I give up
Or should I just keep chasing pavements
Even if it leads nowhere
Or would it be a waste
Even if I knew my place should I leave it there?
Should I give up
Or should I just keep chasing pavements
Even if it leads nowhere?

I'd build myself up
And fly around in circles
Wait then as my heart drops
And my back begins to tingle
Finally could this be it

Should I give up
Or should I just keep chasing pavements
Even if it leads nowhere
Or would it be a waste
Even if I knew my place should I leave it there?
Should I give up
Or should I just keep chasing pavements
Even if it leads nowhere?

Should I give up
Or should I just keep chasing pavements
Even if it leads nowhere
Or would it be a waste
Even if I knew my place should I leave it there?
Should I give up
Or should I just keep chasing pavements
Even if it leads nowhere?

sábado, 1 de maio de 2010

On the road


Ir até o outro lado e depois voltar e não ter saído do lugar.

A Pinacoteca lotada curva-se perante a grandeza uma gente que recria a si mesma na arte, como o arado que revolve a terra para nela fazer renascer o alimento.

No palco improvisado, o balé Yuba celebra o encontro do particular com o universal. A dança revela a consciência de seus corpos em luta contra as ondas de Sapporo, no norte do Japão. Logo em seguida, põem-se a representar nosso tradicional casamento caipira, com direito a noiva, padre e bandeirinhas, caleidoscópio sincrético multicor a exalar o cheiro do mato ouriçado pelo vendaval que anuncia a chuva, que faz o rio, que desagua no oceano, que banha o Japão...

Partem de casa de manhã bem cedinho. Chegam de ônibus fretado ao centro de São Paulo, vestem-se para a dança, a cabeça altiva, orgulhosos do que são. Saúdam a fotógrafa que lhes compreendeu, deu-lhes voz e rosto, e no final do dia retornam, em paz, para a terra que dá abrigo e raiz. Soldados cansados, as roupas dos noivos dobradas com cuidado e guardadas na sacola plástica até a próxima apresentação, sob os pés as lembranças, no coração o dever cumprido.

Mês de maio, mês das noivas, não é senão curioso que a rua delas fique logo ali, quase em frente à Pinacoteca, atravessando a Avenida Tiradentes.

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Começar pela minha aldeia, preconiza Tolstói. Lucille Kanzawa (con)viveu, fotografou e escreveu sua experiência na comunidade nipo-brasileira do interior do Estado de São Paulo, e depois registrou tudo no livro Yuba, lançado em 2010 pela Terra Virgem.

“Akiko Ohara estava linda naquele dezembro de 1961. O próprio Isamu Yuba viera buscá-los, a ela e seu marido Hisao, no cais de Santos. Ela de salto alto, toda maquiada, vestindo a última moda em Tóquio, como convinha a uma grande dançarina, parceira de Kazuo Ohno e Tatsumi Hijikata. Tinha 26 anos e nunca havia saído do Japão. Ao pisar em solo Yuba, Akiko descobriu-se no meio do nada, debaixo de um sol cujo calor desconhecia e cercada de gente de pele tostada e riso fácil. ‘Nunca havia visto pessoas como aquelas na minha vida’, diz”. (Trecho extraído da obra)

Trabalho precioso, coalhado de imagens captadas pela objetiva subjetiva que retratou a beleza presente em delicados rostos femininos carpindo a roça, na preparação do corpo para a dança, no casal de noivos caminhando sobre a grama. Para onde vão, fico curioso em saber.

***

A foto acima foi tirada em 2004, na Itália (também eu sou um brasileiro que veio de algum lugar para compor esse mosaico maravilhoso a que chamamos nossa nação), mas que importa o caminho se é em encontro ao seu destino que o casal caminha.

***

Entoar nosso country latino caipira indolente malicioso delicioso, só nosso, ainda que de olhos rasgados, e só.

Dançar é ir até o outro lado e depois voltar e não ter saído do lugar.

domingo, 25 de abril de 2010

Balanço de abril















Sem fronteiras, por aí. Sem beira
sem bosque, sem sorte, sem ticket, sem toque.
Anybody home? Tóquio
Oriente, vidente,
Ocidente, ciente,
Em mim.
Assinar o nome só com a inicial
Onde o sol nasce.
L.
Assim, com delicadeza
Florescer displicentemente com cerejeiras brancas na primavera úmida, ainda fria
Na terra onde o sal nasce. Cortesia.
Se há alguém em casa, se há alguém na casa, vagando no espaço solto no tempo morto se há vontade saudade sorriso sorte só
Toque-o
Oriente, norte, bússola, brother.
Borderline.
Ou, simplesmente, toc.

***

Envelhecer só com a inicial
E ponto.

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Feliz por get crazy do lado de lá, coisas assim, e voltar para casa.
Alinhar.
Foto tirada em área a céu aberto ao lado ao Museu de Arte Moderna de Tóquio, com uma Sony DSC W190, de 12.1 Mega Pixels,, em abril de 2010.
Modelos anônimas, vida real.
Modelos reais, vida anônima.

***

O que abril abriu?

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“If life is a river and your heart is a boat
And just like a water, baby, baby born to float
And if life is a wild wind that blows way on high
And your heart is Amelia dying to fly
[…]
Man’s jails
Where you thirst and you hunger for justice and right
[…]
Heaven knows no frontiers
And I’ve seen heaven in your eyes”

(Extraído de The Corrs, “No frontiers”, composição de Jimmy Mccarthy, Sony Music Publishing UK)