
Com os olhos da alma, lemos sinais invisíveis e por isso só começamos a enxergar quando nos damos conta de que não vemos. Eles, os sinais, que são ruídos e murmúrios e distorções da vista turva, cansada, enganada, nos dizem que transgressão e rompimento são nossos atalhos para a sobrevivência ou para a mudança, enquanto tradição e obediência são traições que cometemos contra nós mesmos e a cultura humana. Redenção é nos apoderarmos de nossa história e a recriarmos. Fé é agir. Se sobrevier uma recompensa por essa ação, a tomaremos por um milagre. Os sinais são ininterruptos, viajam o universo, estamos imersos nele.
Há um grande projeto conspirando aqui e agora, entre mim e você. Ele é bom e é simples. É uma estática inaudível, transparente, viajando o universo, espaço-tempo, amorfo, escuro, claro, banhando nossos corações e olhos e vozes e soluços. Graças a Deus, somos todos poeira cósmica.
Nossa sujeira diária só o é aos olhos dos incautos e nossa santidade superficial sintética corroída inventada morta também só o é aos olhos de outros, incautos também. Coerência é não pensar. Sensações são segredos que a alma não aguenta guardar para si e suspira para fora em nossos sonhos, sobre nós, para que a resgatemos, não porque precise de nós para a salvarmos, mas porque ela simplesmente gosta de nós. A alma tem uma razão que ela não suporta. Ela é feliz em sua ignorância porque a ignorância da alma aos olhos do universo é luz e a luz do universo aos olhos do homem santo artificial inventado morto é ignorância, e quem são os incautos?
Tudo é quase isso tudo, mas é bem mais simples, porque não tem as polaridades. Não há não-sim, bom-mau, sagrado-profano. Não é possível estar à esquerda ou à direita, a única física possível da alma é estar em todos os lugares. A verdade é dupla, ambígua, rasa. Toda consistência é falsa. Não há ortodoxias.
Não são concessões o que fazemos quando somos coerentes, conviver é viver em harmonia e de acordo com nossos desejos voláteis tolos. E os desejos são necessários para nossa sobrevivência, nossa propagação. Esse grande projeto imperialista do Eu. O amor não cede, ele simplesmente dá.
Não há contradições.
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Ontem fui assistir no Teatro Eva Herz ao monólogo “A alma imoral”, cujo texto foi adaptado por Clarice Niskier, que também o encena, a partir do livro homônimo de Nilton Bonder.
Fazia tempo que buscava respostas a várias questões afetivas e existenciais. A peça, como tudo o que nos acontece de melhor, fui ver por acaso. É praticamente textual na peça boa parte do que digo aqui.
Perguntaram-me logo após o espetáculo sobre o que ele tratava. Não soube dar uma resposta clara. É uma reflexão acerca de questões fundantes da cultura: ordem, transgressão, tradição, religião, Deus, lei, moral, ética, desejo.
Deveria ser promulgada uma lei obrigando todos os cidadãos a assistir a essa peça. Uma espécie de serviço militar, de vacina ou de tributo, um teatro por assim dizer compulsório.
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A foto foi tirada entre julho e agosto de 2004 com aquela câmera Sony digital, na pequena cidade de Rossano, Itália. Rolou um cropizinho básico só para emoldurar o tema.
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O texto abaixo também é obrigatório. Está em “O livro das ignorãças”, de Manoel de Barros:
“O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.
Seu olho exagera o azul.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os
ocasos”.