quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Traçado


Eu lutava com o Anjo,
Com o Mensageiro que nunca mais me deixou.
Que nome tem o que não morre?
O nome de Deus é qualquer,
pois, quando nada responde,
ainda assim uma alegria poreja.

(Adélia Prado, Caderno de Desenho)

Hoje queria lhe mandar as flores. Mas hoje não é exatamente o que havíamos imaginado dele. Não as mandei.

Envergonhei-me das flores porque elas não correspondem ao plano traçado. As flores não seriam mais capazes de dizer o que estavam pressupostas a, são não flores.

A vergonha das flores é uma forma de medo, porque tememos o que não é, tememos o medo, e por isso ele mostra a cara assim, as mãos apertadas, os olhos ao chão, não se apresenta com o nome que tem. Pede desculpas por aquilo que não realiza.

Realizar não contém o real. Vontade de rir. O irrealizado, como o medo, o irreal, também se envergonha de si.

O hoje, queria vivê-lo ao seu lado, é um não hoje. Aquela receita que nem às vezes saía como esperado. Trilhar com você Mariana a cidade histórica e suas ladeiras de paralelepípedos e de lembranças e anjos. Vinho para bebermos Adélia e nos embriagarmos de nós. Sanduíches de risadas! Lily com Marshall, Ted sem Stella, eu e você. Friends, rir outra vez do que somos e do que não somos, até nos entregarmos ao deus do sono, nos entregarmos ao Todo, cabeças opostas no sofá, pernas unidas, yin-yang disfarçado em trivialidades. Cantar com você O meu amor depois do amor e acordar a vizinhança e o sol e os pássaros antes de nós. Eu lhe mostraria uma dança, uma Montevidéu úmida e então lhe encontraria todo dia a um canto da casa tragando, tranquila e nua a cidade aos seus pés.

Envergonhei-me do não hoje porque ele era o traçado, o passado e acordei sem as flores, o criado mudo. As não flores são suas, desculpe o embrulho, o medo, o mundo.

***

Nunca cantei essa canção para você:

There'll be no strings to bind your hands
not if my love can't bind your heart
And there's no need to take a stand
for it was I who chose to start
I see no reason to take me home,
I'm old enough to face the dawn

Just call me angel of the morning, angel
Just touch my cheek before you leave me, baby
Just call me angel of the morning, angel
Then slowly turn away from me

Maybe the sun's light will be dimmed
So it won't matter anyhow
If morning's echo says we've sinned,
Well, it was what I wanted now
And if we're the victims of the night,
I won't be blinded by the light

Just call me angel of the morning, angel
Just touch my cheek before you leave me, baby
Just call me angel of the morning, angel
Then slowly turn away

I won't beg you to stay with me
Through the tears of the day,
Of the years, baby baby baby

(The Pretenders, Angel of the morning)

***

Mariana, foi só você falar: as palavras te ouviram e voltaram =]

***

O hoje é passarinho. Voará para onde?