Eu lutava com o Anjo,
Com o Mensageiro que nunca mais me deixou.
Que nome tem o que não morre?
O nome de Deus é qualquer,
pois, quando nada responde,
ainda assim uma alegria poreja.
(Adélia Prado, Caderno de Desenho)
Hoje queria lhe mandar as flores. Mas hoje não é exatamente
o que havíamos imaginado dele. Não as mandei.
Envergonhei-me das flores porque elas não correspondem ao
plano traçado. As flores não seriam mais capazes de dizer o que estavam
pressupostas a, são não flores.
A vergonha das flores é uma forma de medo, porque tememos o
que não é, tememos o medo, e por isso ele mostra a cara assim, as mãos
apertadas, os olhos ao chão, não se apresenta com o nome que tem. Pede
desculpas por aquilo que não realiza.
Realizar não contém o real. Vontade de rir. O irrealizado,
como o medo, o irreal, também se envergonha de si.
O hoje, queria vivê-lo ao seu lado, é um não hoje. Aquela
receita que nem às vezes saía como esperado. Trilhar com você Mariana a cidade
histórica e suas ladeiras de paralelepípedos e de lembranças e anjos. Vinho
para bebermos Adélia e nos embriagarmos de nós. Sanduíches de risadas! Lily com
Marshall, Ted sem Stella, eu e você. Friends, rir outra vez do que somos e do
que não somos, até nos entregarmos ao deus do sono, nos entregarmos ao Todo, cabeças
opostas no sofá, pernas unidas, yin-yang disfarçado em trivialidades. Cantar com
você O meu amor depois do amor e acordar a vizinhança e o sol e os pássaros
antes de nós. Eu lhe mostraria uma dança, uma Montevidéu úmida e então lhe
encontraria todo dia a um canto da casa tragando, tranquila e nua a cidade aos
seus pés.
Envergonhei-me do não hoje porque ele era o traçado, o
passado e acordei sem as flores, o criado mudo. As não flores são suas,
desculpe o embrulho, o medo, o mundo.
***
Nunca cantei essa canção para você:
There'll be no strings
to bind your hands
not if my love can't
bind your heart
And there's no need to take a stand
for it was I who chose
to start
I see no reason to take me home,
I'm old enough to face the dawn
Just call me angel of
the morning, angel
Just touch my cheek
before you leave me, baby
Just call me angel of
the morning, angel
Then slowly turn away from me
Maybe the sun's light
will be dimmed
So it won't matter anyhow
If morning's echo says
we've sinned,
Well, it was what I
wanted now
And if we're the
victims of the night,
I won't be blinded by the light
Just call me angel of
the morning, angel
Just touch my cheek
before you leave me, baby
Just call me angel of
the morning, angel
Then slowly turn away
I won't beg you to stay with me
Through the tears of
the day,
Of the years, baby
baby baby
(The Pretenders, Angel of the morning)
***
Mariana, foi só você falar: as palavras te ouviram e voltaram =]
***
O hoje é passarinho. Voará para onde?