Para Carmela Grüne, derrubadora de muros
Na última semana, em função da comemoração do próximo Dia das Crianças, os funcionários da empresa onde trabalho puderam levar seus filhos pequenos para passar o dia conhecendo o local de trabalho de seus pais.
Uma dessas crianças tinha o mesmo nome que eu, ainda que grafado com “S” – Luís – e logicamente a coincidência não lhe passou despercebida. Quando conversamos, ele fez várias afirmações na primeira pessoa do singular (“Eu” vou falar para o serviço de manutenção ser mais organizado, “eu” vou trabalhar até tarde e assim por diante), até que eu percebesse que, pela identidade do nome, ele na verdade se referia a mim!
Quem sou “eu”? É a pergunta na qual ele me fez pensar. Como nos construímos?
Nessa mesma semana, revi o filme "Um homem sério", dos irmãos Cohen (A serious man, 2009) e achei muitos direcionamentos por lá. Leia um trecho que transcrevi do diálogo entre Larry, o personagem central, e o rabino Nachter :
– Hashem quer me dizer que o Sy Ableman sou eu? Ou que
somos apenas um, algo assim?
– De que forma Deus fala conosco? É uma boa pergunta.
[...]
– O que significa, rabino? É um sinal de Hashem?
... A resposta está na Cabala? Na Torá?
Será que existe uma pergunta?
Me diga, rabino, o que esse sinal significa?
– Não podemos saber tudo.
– Parece que você não sabe nada! Por que me contou isso?
– As questões que o afligem podem doer como dor de dente.
Sinta-as por um tempo, e desaparecerão.
– Não quero que desapareçam! Quero respostas!
– Todos nós queremos respostas!
Hashem não nos deve respostas. Hashem não nos deve nada.
A obrigação é ao contrário.
– Por que Ele nos dá as perguntas se não dá as respostas?
– [Rindo] Isso Ele nunca me contou!
Nessa mesma semana, revi o filme "Um homem sério", dos irmãos Cohen (A serious man, 2009) e achei muitos direcionamentos por lá. Leia um trecho que transcrevi do diálogo entre Larry, o personagem central, e o rabino Nachter :
– Hashem quer me dizer que o Sy Ableman sou eu? Ou que
somos apenas um, algo assim?
– De que forma Deus fala conosco? É uma boa pergunta.
[...]
– O que significa, rabino? É um sinal de Hashem?
... A resposta está na Cabala? Na Torá?
Será que existe uma pergunta?
Me diga, rabino, o que esse sinal significa?
– Não podemos saber tudo.
– Parece que você não sabe nada! Por que me contou isso?
– As questões que o afligem podem doer como dor de dente.
Sinta-as por um tempo, e desaparecerão.
– Não quero que desapareçam! Quero respostas!
– Todos nós queremos respostas!
Hashem não nos deve respostas. Hashem não nos deve nada.
A obrigação é ao contrário.
– Por que Ele nos dá as perguntas se não dá as respostas?
– [Rindo] Isso Ele nunca me contou!
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A foto acima foi tirada no Museu Edo-Tóquio, em de março de 2010. Todos os olhares são possíveis.
***
Tenho refletido muito sobre Paulo Freire, sobre a ideia de que ninguém nos ensina, de que nos ensinamos uns aos outros, de que o conhecimento e o sentido das coisas, nós os criamos juntos.
O vídeo cujo link segue mais abaixo, intitulado "O buraco no muro", me emocionou. Porque representa uma possibilidade.
Numa favela na Índia, país que guarda tantos possíveis paralelos com o nosso (somos uma espécie de Luiz e Luís?), crianças ensinam umas as outras a utilizar a Internet e, a partir dela, a construir o conhecimento. Porque num buraco no muro que divide a favela e uma empresa de informática foi aberta uma chance dessas crianças desenharem seu conhecimento desse novo mundo que se descortina para nós. Fiquei até pensando de qual "buraco" o filme estaria falando. Um buraco no muro para mirar o outro lado, uma janela para aprender a enxergar além, uma porta para entrar no futuro.
A sociedade da informação, por meio do acesso de qualquer pessoa à cultura, a dados e principalmente a uma voz, capaz de ser multiplicada de maneira viral, a uma velocidade estonteante, é muito perigosa.
Perigosa para o status quo, na medida em que deslegitima certas crenças sobre as quais os detentores do poder (político, social, econômico...) se apoiam para justificar uma relação de dominantes e dominados.
Mas o que o simples olhar através de um buraco no muro é capaz de provar! Que o ser humano, independentemente de sua classe social e do grau de inserção na cultura institucionalizada, traz em si um potencial de auto-realização e, por conseguinte, de provocar mudanças em seu meio, subvertendo a ordem programada por quem se interessa por mantê-los em seus lugares de origem.
Quantos séculos de subjugação um simples "olhar através" é capaz de remover.
Essa constatação abre espaço para alargarmos o buraco. O papel da escola tradicional é esvaziado como centro de divulgação de conhecimentos, pois ele, o conhecimento, está em qualquer lugar e na era da informação é descentralizado, livre e tão ilimitado quanto a nossa humana capacidade de aprendermos, reciclarmos, (re)inventarmos o conhecimento e a nós mesmos.
Perigosa para o status quo, na medida em que deslegitima certas crenças sobre as quais os detentores do poder (político, social, econômico...) se apoiam para justificar uma relação de dominantes e dominados.
Mas o que o simples olhar através de um buraco no muro é capaz de provar! Que o ser humano, independentemente de sua classe social e do grau de inserção na cultura institucionalizada, traz em si um potencial de auto-realização e, por conseguinte, de provocar mudanças em seu meio, subvertendo a ordem programada por quem se interessa por mantê-los em seus lugares de origem.
Quantos séculos de subjugação um simples "olhar através" é capaz de remover.
Essa constatação abre espaço para alargarmos o buraco. O papel da escola tradicional é esvaziado como centro de divulgação de conhecimentos, pois ele, o conhecimento, está em qualquer lugar e na era da informação é descentralizado, livre e tão ilimitado quanto a nossa humana capacidade de aprendermos, reciclarmos, (re)inventarmos o conhecimento e a nós mesmos.
Vale a pena vê-lo:
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Nesse novo, revolucionário e “perigoso” sentido paulofreiriano, Luiz e Luís são mesmo uma só pessoa. Como cedo descobriu meu amiguinho de sete anos de idade.
Receba com simplicidade tudo o que acontece com você (Rabi Rashi).
Receba com simplicidade tudo o que acontece com você (Rabi Rashi).

