Para C.H.
Para meu pai
“Eu que não sabia que o amor requer vigília”.
O tempo em sua passagem vaga e silenciosa, vaga e silenciosa, vaga e silenciosa e vaga... À espreita de um momento, à espera dele mesmo, do próprio tempo, que o converta em dor, em saber, em tormento, o tempo.
“Não há paz que não tenha um fim”.
O tempo, circular. Não há noite que não amanheça.
Ainda que fria, ainda que noite, ainda que dia.
Paz.
Paz e tormento. Pás e vento. Paz e tempo.
Minha paternidade emplastada em sede, minha fertilidade travestida em busca, em fome, em cerca, em cor, em mata.
Eu que não sabia que o amor requer vigília, eu que não sabia que meu pai. Hoje, aniversário dele, manhã fria, ainda que dia, setenta anos eu faria.
Paz, hexagrama 11, sou eu corpo, sou eu toco, sou eu soco, sou eu.
Da janela, a tarde de lilazes, os graus da Augusta, os degraus, o curso, o pulso, a curva. A prova, a nova, o amanhã, o pai, o filho, a ilha. Meu projeto. Meu sonho, meu filho.
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Essa foto tirei num casarão de Santelmo, em meio a presságios e alegrias. É bom caminhar por ali, pelo pátio, pelo tempo. Há pouco, lá estive novamente. Com minha mãe, agora. O tempo passou. O tempo não passou. Pás.
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O tempo... O tempo e suas águas inflamáveis. Esse rio largo que não cansa de correr, lento e sinuoso. "Ái daquele" – dizia o pai – "que tenta deter com as mãos seu movimento. Será consumido por suas águas.
Ái daquele, aprendiz de feiticeiro, que abre a camisa para o confronto; há de sucumbir em suas chamas.
O tempo e suas mudanças, presente em cada sítio, em cada palmo, em cada grão, e presente também com seus instantes, em cada letra desta minha história passional, transformando a noite escura do meu retorno numa manhã cheia de luz”.
(O trecho imediatamente acima, bem como as frases entre aspas no início desse post, foram transcritos do filme Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, baseado na obra de Raduan Nassar. Para se ver com o olhar e com os sentidos).
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Meu filho será Conrado. Prudência, coração e honra.
Seu nome será vento.

