quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Com qual cabeça eu vou hoje?


Hoje eu queria falar sobre as escolhas. E as escolhas masculinas, já que no post anterior falei sobre as femininas. Então hoje quero pensar um pouco sobre as escolhas do ponto de vista masculino, como objeto e como gênero. Ou seria gênese?, não sei ainda e talvez essa, precisamente essa escolha seja o verdadeiro objeto do pensamento de hoje. Mas se a foto postada ostenta três orgulhosas (ou seriam “derrotadas”) cabeças masculinas, ou melhor de machos bovinos, a que chamaríamos bois por amor à simplicidade e à leveza, ou ainda touros,  por falta de algo que lhe coubesse originalmente ou para uma maior precisão técnica, se um eufemismo for o bastante para nos confortar, precisaríamos pensar no elemento masculino oculto na mensagem subjacente à foto. Aliás, literalmente oculto, considerando a impossibilidade de visão do rosto do modelo por trás da coluna vermelha, ou seria mais precisamente um truque fotográfico, acerca do que não nos caberia aqui discorrer, ainda que a questão tivesse alguma importância para o assunto em tela, por sinal literalmente em tela, já que meu interlocutor imaginário utiliza-se nesse preciso momento de um dispositivo cuja interface se faz visível, precisamente por uma tela, ecrã talvez, e não um outro corpo como as páginas brancas alcalinas ou ainda amareladas, propositalmente ou não, de um livro ou um folheto solto como folhas ao vento ou ainda o papel poroso sujo tinto de uma página de jornal ou de um rótulo de creme de avelã, ou, por fim, mas não menos, de um cartaz colado a um poste, telefone público ou muro oculto na poeira bagunça visual tátil de nossa cidade, nossa urbe labiríntica, de traços sinuosos, de elegias proféticas, de impulsos travestidos em luz neon e apelos e gás e fumaça e pêlos e ônibus e profetas e mártires em suas gravatas, skates, capacetes, lunetas megafones urgentes silentes casados martirizados (uma vez mais) soltos saltos rasos. Mas já com a consciência de me ter perdido nesse pensamento, faço o caminho de volta ao ponto onde estávamos antes de pegarmos o atalho errado perigoso e assim resgatarmos a linha de raciocínio o elo a liga entre a proposta da reflexão de hoje, indagando a curiosa e não menos enigmática constatação (rima com constelação e é de todos conhecido que tenho particular afeição por tudo que universal seja, no sentido cósmico e astronômico, ou ainda, não menos, cosmológico e cosmogônico até do termo, de, como dito, particular interesse para mim, o que o torna paradoxal, numa certa acepção, por talvez indevidamente, ou mesmo devidamente, confrontar o universal e o particular num mesmo íntimo, lídimo,  lógico jogo de conceitos, o qual, em última instância, por amor à leveza e à simplicidade nada menos consiste senão na própria e exata descrição função missão dessas mal delineadas páginas – como quem diria mal traçadas linhas em tempos idos moídos – pois bem, são precisamente o contraponto simbólico entre o particular e o universal, dizia, a razão primeira, ou seria última, ou ainda mediática, desse construto escrito restrito que coloco na Grande Rede talvez como ondas de freqüência modulada dispersas lançadas ao nada no espaço sideral a vagar infinitamente por sua imensidão, oferendas a um altar escuro e infinito, elas próprias em sua infinita insignificância, solitárias porque sequer minha mãe, estou bem certo, sequer ela demonstraria honesto interesse ou disposição de desvendar minha verborrágica explosão de conteúdos inconscientes?, irracionais?, o que você queria?, lançados como lava ao terreno semiplano de duvidosa, e por que não ainda ambígua efetividade prática, da lamacenta razão humana). Mas, que lástima, aqui incurso em mais um meandro, dead-end que impõe voltar, mas voltar a que ponto, onde perdeu-se o fio da meada do novelo da linha do raciocínio que me prontificava enfrentar. Ah, sim, o paradigma masculino incrustado nas três cabeças de gado a adornar a tenda a loja a venda, ornamentos eles também tão bem úteis ao varão de semblante oculto, úteis no sentido de repor o importante órgão que lhe falta, o encéfalo quero dizer, aquele contido em sua caixa craniana, seguido do vital tecido que o recobre e junta e da pele e demais órgãos masculinos e orifícios que lhe dão sentido, visão, olfato, paladar, bom senso, pensamento e equilíbrio, posto que o labirinto, órgão de peculiar importância na orientação dos indivíduos, quer sejam frágeis ou mulheres, tem localização exata na proximidade dos ouvidos, por sua vez, nunca deixei de pensar, órgãos responsáveis pela ventilação, ou o movimento seria de exaustão?, a qual, num sentido assim semiológico, o que é tautológico e portanto de discutível apuro, a julgar pelo conjunto imagético fornecido pela construção proposta pelo olhar do fotógrafo, ainda a falta, ainda que nada, ainda que silly, que silencie, que muda, que mude.

O outro lado, a saída, a resposta, a busca, está no enigma. Na boca que o profere na largada, não na chegada, nunca. O objeto em si. O teto acima dele.

Não sei se há escolhas, mas sei que há rios e neles suas curvas. Decifrar o labirinto também.

O universo é linguagem. Ou devora-te.

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Fiz essa foto há algum tempo dentro de uma galeria em São Paulo. Não há retoques nem desconstruções, é trágica e estranha mesmo. A par da simpatia das três cabeças. Batizei-a Minotauro no provador.

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Um pouco antes do Natal, assisti ao Persona, do Bergman (Suécia, 1966). Ao tentar traduzi-lo para o universo masculino, me pareceu adequado discorrer sobre o homem e suas cabeças. Por falar nisso, a enfermeira Bibi Andersson bate um bolão.  De tão solícita com a atriz a quem serve, personagem interpretada por Liv Ullmann, que emudece ao chamar para si suas escolhas (acho que as mulheres são o contrário do que disse acima), parece que vai lascar-lhe um beijo. Mas não.

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O trecho abaixo transcrevi do conto O Aleph, do livro de Borges de mesmo nome (Companhia das Letras, 2008, tradução de Davi Arrigucci Junior):

“…Vacilou e com essa voz plana, impessoal, à qual costumamos recorrer para confiar algo muito íntimo, disse que para terminar o poema lhe era indispensável a casa, pois num ângulo do porão havia um Aleph. Esclareceu que um Aleph é um dos pontos do espaço que contém todos os pontos.
– Está no porão da sala de jantar – explicou, com a dicção aligeirada pela angústia. – E meu, é meu; eu o descobri na infância, antes da idade escolar. A escada do porão é empinada, meus tios me haviam proibido de descer, mas alguém me disse que havia um mundo no porão. Referia-se, soube depois, a um baú, mas eu compreendi que havia um mundo. Desci secretamente, rolei pela escada proibida, caí. Ao abrir os olhos, vi o Aleph.
– O Aleph? – repeti.
– Sim, o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do orbe, vistos de todos os ângulos. A ninguém revelei minha descoberta, mas voltei. O menino não podia compreender que lhe fosse concedido esse privilégio para que o homem burilasse o poema! Zunino e Zungri não me despojarão, não e mil vezes não. De código na mão, o doutor Zunni provará que é inalienável o meu Aleph.
Procurei raciocinar.
– Mas não é muito escuro o porão? – A verdade não penetra num entendimento rebelde. Se todos os lugares da terra estão no Aleph, aí estarão todas as luminárias, todas as lâmpadas, todas as fontes de luz.
– Irei vê-lo imediatamente”.

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E não é que quando a gente está procurando uma coisa pela casa sempre acaba encontrando outra, perdida há mais tempo?