domingo, 9 de outubro de 2011

O buraco no muro


Para Carmela Grüne, derrubadora de muros

Na última semana, em função da comemoração do próximo Dia das Crianças, os funcionários da empresa onde trabalho puderam levar seus filhos pequenos para passar o dia conhecendo o local de trabalho de seus pais.

Uma dessas crianças tinha o mesmo nome que eu, ainda que grafado com “S” – Luís – e logicamente a coincidência não lhe passou despercebida. Quando conversamos, ele fez várias afirmações na primeira pessoa do singular (“Eu” vou falar para o serviço de manutenção ser mais organizado, “eu” vou trabalhar até tarde e assim por diante), até que eu percebesse que, pela identidade do nome, ele na verdade se referia a mim!

Quem sou “eu”? É a pergunta na qual ele me fez pensar. Como nos construímos?

Nessa mesma semana, revi o filme "Um homem sério", dos irmãos Cohen (A serious man, 2009) e achei muitos direcionamentos por lá. Leia um trecho que transcrevi do diálogo entre Larry, o personagem central, e o rabino Nachter :

 Hashem quer me dizer que o Sy Ableman sou eu? Ou que 
   somos apenas um, algo assim?
– De que forma Deus fala conosco? É uma boa pergunta.
    
[...]
– O que significa, rabino? É um sinal de Hashem? 
   ... A resposta está na Cabala? Na Torá? 
   Será que existe uma pergunta?  
   Me diga, rabino, o que esse sinal significa?
– Não podemos saber tudo.
– Parece que você não sabe nada! Por que me contou isso?
– As questões que o afligem podem doer como dor de dente. 

   Sinta-as por um tempo, e desaparecerão.
 Não quero que desapareçam! Quero respostas!
– Todos nós queremos respostas! 

   Hashem não nos deve respostas. Hashem não nos deve nada. 
   A obrigação é ao contrário.
 Por que Ele nos dá as perguntas se não dá as respostas?
– [Rindo] Isso Ele nunca me contou!

 ***

A foto acima foi tirada no Museu Edo-Tóquio, em de março de 2010. Todos os olhares são possíveis.

***

Tenho refletido muito sobre Paulo Freire, sobre a ideia de que ninguém nos ensina, de que nos ensinamos uns aos outros, de que o conhecimento e o sentido das coisas, nós os criamos juntos.

O vídeo cujo link segue mais abaixo, intitulado "O buraco no muro", me emocionou. Porque representa uma possibilidade.

Numa favela na Índia, país que guarda tantos possíveis paralelos com o nosso (somos uma espécie de Luiz e Luís?), crianças ensinam umas as outras a utilizar a Internet e, a partir dela, a construir o conhecimento. Porque num buraco no muro que divide a favela e uma empresa de informática foi aberta uma chance dessas crianças desenharem seu conhecimento desse novo mundo que se descortina para nós. Fiquei até pensando de qual "buraco" o filme estaria falando. Um buraco no muro para mirar o outro lado, uma janela para aprender a enxergar além, uma porta para entrar no futuro.

A sociedade da informação, por meio do acesso de qualquer pessoa à cultura, a dados e principalmente a uma voz, capaz de ser multiplicada de maneira viral, a uma velocidade estonteante, é muito perigosa.

Perigosa para o status quo, na medida em que deslegitima certas crenças sobre as quais os detentores do poder (político, social, econômico...) se apoiam para justificar uma relação de dominantes e dominados.

Mas o que o simples olhar através de um buraco no muro é capaz de provar! Que o ser humano, independentemente de sua classe social e do grau de inserção na cultura institucionalizada, traz em si um potencial de auto-realização e, por conseguinte, de provocar mudanças em seu meio, subvertendo a ordem programada por quem se interessa por mantê-los em seus lugares de origem.

Quantos séculos de subjugação um simples "olhar através" é capaz de remover.

Essa constatação abre espaço para alargarmos o buraco. O papel da escola tradicional é esvaziado como centro de divulgação de conhecimentos, pois ele, o conhecimento, está em qualquer lugar e na era da informação é descentralizado, livre e tão ilimitado quanto a nossa humana capacidade de aprendermos, reciclarmos, (re)inventarmos o conhecimento e a nós mesmos.

Vale a pena vê-lo:


***

Nesse novo, revolucionário e “perigoso” sentido paulofreiriano, Luiz e Luís são mesmo uma só pessoa. Como cedo descobriu meu amiguinho de sete anos de idade.

Receba com simplicidade tudo o que acontece com você (Rabi Rashi).

domingo, 21 de agosto de 2011

Meet me in Montauk

















Não sei mais ler o futuro. Quero adivinhar o passado.

Este é um dia particularmente cinza que está fazendo hoje. Esqueci como é o seu rosto. Retrato descuidado roído por traças que desvanece lentamente como que lavado por águas preguiçosas que vão apagando sua imagem, voz, brigas, risadas, olhar, sorriso, palidez, lembranças, presença. Não há violência maior que o esquecimento.

Os trechos a seguir são diálogos transcritos do filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Leia ouvindo – ou imaginando – que a música mais triste que você conhece está tocando ao fundo. Se você não tiver nenhuma, sugiro Years of Solitude, com Astor Piazzolla e Gerry Mulligan. 

"Now, the, uh – the first thing we need you to do, Mr. Barish, is to go home... and collect everything you own that has some association with Clementine. Anything. And we'll use these items to create a map of Clementine in your brain. Okay? So we'll need, uh, uh, photos, clothing, gifts, books she may have bought you, CDs you may have bought together, journal entries. We want to empty your home – we want to empty your life of Clementine. And after the mapping is done, our technicians will do the erasing in your home tonight. That way, when you awake in the morning, you'll find yourself in your own bed as if nothing had happened – a new life awaiting you."

Lembranças são sensíveis. Entenda como quiser.

"I could die right now, Clem. I'm just... happy. I've never felt that before. I'm just exactly... where I wanna be".

Enquanto sua memória vai sendo mecanicamente, selvagemente, barbaramente apagada, você se vira para o seu algoz, a música ao fundo ficando mais e mais alta, mais intensa, mais aflita, e você murmura, quase em súplica:

"Dr. Mierzwiak, please let me keep this memory. Just this one."

Suas lembranças são lâminas com as quais você se mutila:

"No, I don't think her sex is... motivated. I saw it clearly the last night we were together. It wasn't sex. It was just... sad."

A música triste continua. Mais lenta de novo, agora.

“I'll get bored with you and feel trapped... because that's what happens with me.”

***

A foto acima produzi hoje, para lembrar do que esqueci.

***

Não por coincidência, estou lendo The fabric of the cosmos. Space. Time. And the texture of reality, do físico Brian Greene (Vintage Books, 2004, p. 191), que diz assim (tradução livre):

“Uma observação feita hoje pode ajudar a completar a história que contamos sobre um processo que começou ontem, ou antes de ontem, ou talvez um bilhão de anos atrás. Uma observação feita hoje pode delinear os tipos de detalhes que podemos e devemos incluir na história que contamos hoje sobre o passado. [...] Apagando o passado. É de essencial importância notar que nesses experimentos...”

[sobre realidade quântica, em que sensores de fótons dispostos em vias de passagem da luz tentam observar como se dá o “comportamento” dessas partículas quanto à escolha do caminho por onde seguir]

“...o passado não é, de nenhuma maneira, alterado por ações do presente [...] Isto levanta a seguinte questão: se você não pode mudar algo que já aconteceu, você pode fazer a próxima melhor opção e apagar seu impacto sobre o presente?”.

Hum, interessante.

***

O lado triste da história é no final não haver história.

Technicians will do the erasing.

***

P.S.: [Numa fita K-7] My name is Clementine Kruczynski.  I'm here to erase Joel Barish. He's boring. Is that enough reason to erase someone? I've been thinking lately how I was before and how I am now, and it's like he changed me. I feel like I'm always pissy now. I don't like myself when I'm with him. I don't like myself anymore. I can't stand to even look at him. That pathetic, wimpy, apologetic smile – that sort of wounded puppy shit he does, you know...?"

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Hexagrama 11



Para C.H.
Para meu pai

“Eu que não sabia que o amor requer vigília”.

O tempo em sua passagem vaga e silenciosa, vaga e silenciosa, vaga e silenciosa e vaga... À espreita de um momento, à espera dele mesmo, do próprio tempo, que o converta em dor, em saber, em tormento, o tempo.

“Não há paz que não tenha um fim”.

O tempo, circular. Não há noite que não amanheça.
Ainda que fria, ainda que noite, ainda que dia.
Paz.

Paz e tormento. Pás e vento. Paz e tempo.

Minha paternidade emplastada em sede, minha fertilidade travestida em busca, em fome, em cerca, em cor, em mata.

Eu que não sabia que o amor requer vigília, eu que não sabia que meu pai. Hoje, aniversário dele, manhã fria, ainda que dia, setenta anos eu faria.

Paz, hexagrama 11, sou eu corpo, sou eu toco, sou eu soco, sou eu.

Da janela, a tarde de lilazes, os graus da Augusta, os degraus, o curso, o pulso, a curva. A prova, a nova, o amanhã, o pai, o filho, a ilha. Meu projeto. Meu sonho, meu filho.

***

Essa foto tirei num casarão de Santelmo, em meio a presságios e alegrias. É bom caminhar por ali, pelo pátio, pelo tempo. Há pouco, lá estive novamente. Com minha mãe, agora. O tempo passou. O tempo não passou. Pás.

***

O tempo... O tempo e suas águas inflamáveis. Esse rio largo que não cansa de correr, lento e sinuoso. "Ái daquele" – dizia o pai – "que tenta deter com as mãos seu movimento. Será consumido por suas águas.

Ái daquele, aprendiz de feiticeiro, que abre a camisa para o confronto; há de sucumbir em suas chamas.

O tempo e suas mudanças, presente em cada sítio, em cada palmo, em cada grão, e presente também com seus instantes, em cada letra desta minha história passional, transformando a noite escura do meu retorno numa manhã cheia de luz”.

(O trecho imediatamente acima, bem como as frases entre aspas no início desse post, foram transcritos do filme Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, baseado na obra de Raduan Nassar. Para se ver com o olhar e com os sentidos).

***

Meu filho será Conrado. Prudência, coração e honra.

Seu nome será vento.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Com qual cabeça eu vou hoje?


Hoje eu queria falar sobre as escolhas. E as escolhas masculinas, já que no post anterior falei sobre as femininas. Então hoje quero pensar um pouco sobre as escolhas do ponto de vista masculino, como objeto e como gênero. Ou seria gênese?, não sei ainda e talvez essa, precisamente essa escolha seja o verdadeiro objeto do pensamento de hoje. Mas se a foto postada ostenta três orgulhosas (ou seriam “derrotadas”) cabeças masculinas, ou melhor de machos bovinos, a que chamaríamos bois por amor à simplicidade e à leveza, ou ainda touros,  por falta de algo que lhe coubesse originalmente ou para uma maior precisão técnica, se um eufemismo for o bastante para nos confortar, precisaríamos pensar no elemento masculino oculto na mensagem subjacente à foto. Aliás, literalmente oculto, considerando a impossibilidade de visão do rosto do modelo por trás da coluna vermelha, ou seria mais precisamente um truque fotográfico, acerca do que não nos caberia aqui discorrer, ainda que a questão tivesse alguma importância para o assunto em tela, por sinal literalmente em tela, já que meu interlocutor imaginário utiliza-se nesse preciso momento de um dispositivo cuja interface se faz visível, precisamente por uma tela, ecrã talvez, e não um outro corpo como as páginas brancas alcalinas ou ainda amareladas, propositalmente ou não, de um livro ou um folheto solto como folhas ao vento ou ainda o papel poroso sujo tinto de uma página de jornal ou de um rótulo de creme de avelã, ou, por fim, mas não menos, de um cartaz colado a um poste, telefone público ou muro oculto na poeira bagunça visual tátil de nossa cidade, nossa urbe labiríntica, de traços sinuosos, de elegias proféticas, de impulsos travestidos em luz neon e apelos e gás e fumaça e pêlos e ônibus e profetas e mártires em suas gravatas, skates, capacetes, lunetas megafones urgentes silentes casados martirizados (uma vez mais) soltos saltos rasos. Mas já com a consciência de me ter perdido nesse pensamento, faço o caminho de volta ao ponto onde estávamos antes de pegarmos o atalho errado perigoso e assim resgatarmos a linha de raciocínio o elo a liga entre a proposta da reflexão de hoje, indagando a curiosa e não menos enigmática constatação (rima com constelação e é de todos conhecido que tenho particular afeição por tudo que universal seja, no sentido cósmico e astronômico, ou ainda, não menos, cosmológico e cosmogônico até do termo, de, como dito, particular interesse para mim, o que o torna paradoxal, numa certa acepção, por talvez indevidamente, ou mesmo devidamente, confrontar o universal e o particular num mesmo íntimo, lídimo,  lógico jogo de conceitos, o qual, em última instância, por amor à leveza e à simplicidade nada menos consiste senão na própria e exata descrição função missão dessas mal delineadas páginas – como quem diria mal traçadas linhas em tempos idos moídos – pois bem, são precisamente o contraponto simbólico entre o particular e o universal, dizia, a razão primeira, ou seria última, ou ainda mediática, desse construto escrito restrito que coloco na Grande Rede talvez como ondas de freqüência modulada dispersas lançadas ao nada no espaço sideral a vagar infinitamente por sua imensidão, oferendas a um altar escuro e infinito, elas próprias em sua infinita insignificância, solitárias porque sequer minha mãe, estou bem certo, sequer ela demonstraria honesto interesse ou disposição de desvendar minha verborrágica explosão de conteúdos inconscientes?, irracionais?, o que você queria?, lançados como lava ao terreno semiplano de duvidosa, e por que não ainda ambígua efetividade prática, da lamacenta razão humana). Mas, que lástima, aqui incurso em mais um meandro, dead-end que impõe voltar, mas voltar a que ponto, onde perdeu-se o fio da meada do novelo da linha do raciocínio que me prontificava enfrentar. Ah, sim, o paradigma masculino incrustado nas três cabeças de gado a adornar a tenda a loja a venda, ornamentos eles também tão bem úteis ao varão de semblante oculto, úteis no sentido de repor o importante órgão que lhe falta, o encéfalo quero dizer, aquele contido em sua caixa craniana, seguido do vital tecido que o recobre e junta e da pele e demais órgãos masculinos e orifícios que lhe dão sentido, visão, olfato, paladar, bom senso, pensamento e equilíbrio, posto que o labirinto, órgão de peculiar importância na orientação dos indivíduos, quer sejam frágeis ou mulheres, tem localização exata na proximidade dos ouvidos, por sua vez, nunca deixei de pensar, órgãos responsáveis pela ventilação, ou o movimento seria de exaustão?, a qual, num sentido assim semiológico, o que é tautológico e portanto de discutível apuro, a julgar pelo conjunto imagético fornecido pela construção proposta pelo olhar do fotógrafo, ainda a falta, ainda que nada, ainda que silly, que silencie, que muda, que mude.

O outro lado, a saída, a resposta, a busca, está no enigma. Na boca que o profere na largada, não na chegada, nunca. O objeto em si. O teto acima dele.

Não sei se há escolhas, mas sei que há rios e neles suas curvas. Decifrar o labirinto também.

O universo é linguagem. Ou devora-te.

***

Fiz essa foto há algum tempo dentro de uma galeria em São Paulo. Não há retoques nem desconstruções, é trágica e estranha mesmo. A par da simpatia das três cabeças. Batizei-a Minotauro no provador.

***

Um pouco antes do Natal, assisti ao Persona, do Bergman (Suécia, 1966). Ao tentar traduzi-lo para o universo masculino, me pareceu adequado discorrer sobre o homem e suas cabeças. Por falar nisso, a enfermeira Bibi Andersson bate um bolão.  De tão solícita com a atriz a quem serve, personagem interpretada por Liv Ullmann, que emudece ao chamar para si suas escolhas (acho que as mulheres são o contrário do que disse acima), parece que vai lascar-lhe um beijo. Mas não.

***

O trecho abaixo transcrevi do conto O Aleph, do livro de Borges de mesmo nome (Companhia das Letras, 2008, tradução de Davi Arrigucci Junior):

“…Vacilou e com essa voz plana, impessoal, à qual costumamos recorrer para confiar algo muito íntimo, disse que para terminar o poema lhe era indispensável a casa, pois num ângulo do porão havia um Aleph. Esclareceu que um Aleph é um dos pontos do espaço que contém todos os pontos.
– Está no porão da sala de jantar – explicou, com a dicção aligeirada pela angústia. – E meu, é meu; eu o descobri na infância, antes da idade escolar. A escada do porão é empinada, meus tios me haviam proibido de descer, mas alguém me disse que havia um mundo no porão. Referia-se, soube depois, a um baú, mas eu compreendi que havia um mundo. Desci secretamente, rolei pela escada proibida, caí. Ao abrir os olhos, vi o Aleph.
– O Aleph? – repeti.
– Sim, o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do orbe, vistos de todos os ângulos. A ninguém revelei minha descoberta, mas voltei. O menino não podia compreender que lhe fosse concedido esse privilégio para que o homem burilasse o poema! Zunino e Zungri não me despojarão, não e mil vezes não. De código na mão, o doutor Zunni provará que é inalienável o meu Aleph.
Procurei raciocinar.
– Mas não é muito escuro o porão? – A verdade não penetra num entendimento rebelde. Se todos os lugares da terra estão no Aleph, aí estarão todas as luminárias, todas as lâmpadas, todas as fontes de luz.
– Irei vê-lo imediatamente”.

***

E não é que quando a gente está procurando uma coisa pela casa sempre acaba encontrando outra, perdida há mais tempo?