Meias palavras são sem-palavras, mentiras têm os pés descalços.
O que acontece é mais ou menos assim: no começo do fim, o Sol inflamar-se-á. Como consequência, é tudo verdade, a Terra incendiar-se-á. Após o fogo – brilho que consome – ceifar a toda a vida, o astro-rei encolherá, e encolherá, e então morrerá, pequeno, velho, frio e embriagado e inútil e, por fim, no gelo permaneceremos enquanto durarem os últimos dias de nossa eternidade.
A verdade, saiba, a verdade é que o final do tempo, falando abertamente, é uma constatação matemática. E coincide com o final do espaço, tempo e espaço devorados por uma boca desdentada e muda, sugados simultaneamente por um buraco negro inexorável e terrífico. O universo também encontrará seu próprio fim, é questão de tempo.
Engolirá a si próprio, feroz, faminto, suicida.
Que vontade de rir!
Há também beleza na autofagia das estrelas sós em sua vivência meteórica, devoradoras recíprocas em seu fim, auto-consumíveis apaixonadas antropófagas canibais. Não há modo mais belo de acabar com tudo!
Meias-palavras para descrever o fim. Olha a que pé chegamos, justificando os meios. O passado não existirá no futuro, este se auto-aniquilará. É o que estrelas mortas fazem.
Seu brilho viaja o universo, no espaço atravessa a imensidão escura e fria numa velocidade que, desafiando o tempo, nos traz uma mensagem do que não mais há.
É tanto quanto afirmar que, no futuro, o passado não existirá. Já não existe.
O passado será descalças palavras meias furadas enfeites, espectro
Lispector
A eternidade também tem fim.
Se tudo terminará, e terminará
Para quê a pressa, o mapa a bússola o choque o susto a morte a vida o tempo
Não há, não há
Se tudo terminará, o que importa a porca a porta o centro o lado a meta o sul o norte a morte
São perguntas, são palavras-meias, respostas não, não tenho sinceramente respostas são perguntas sinceras meias verdades inteiras
A eternidade é manchete, é mancha, também tem fim! Além do universo reside o nada, depois que ele engole a si próprio é também ele o nada.
E bebemos seu leito caudaloso e negro, palavras engolidas de nós mesmos, ferozes, famintos, nervosos, suicidas.
A matemática é uma palavra inteira. Fora dela, todas as palavras são meias verdades.
OK, você pode contra-argumentar com a outra metade das suas palavras, antes do fim dos fins temos o meio a meia inteira
Tem tudo aqui, Manoel de Barros, rio e peixe e pantanal, cidades inteiras e carros e motos e PC’s e crime e frio e chuva e globo e coréias e vulcões e lava e lama e fogo e estrela e cinema e tema e livro e riso e choro e vida vida vida vida ainda que mesma ainda que resma ainda que viva
E a política é a arte das meias-palavras também, porque depois dela vem a ação e o fim justifica os meios.
Ou no princípio não seria o verbo.
E no mundo até podemos pagar meia-entrada mas a saída é sempre inteira.
Nós, tão cheios de nossas opiniões notáveis, lugares-comuns em pele de verdade nova, nossa arrogância, nossas mentiras inteiras estúpidas de nós mesmos.
Em seu grand finale
O universo vestido a rigor, curva-se sensibilizado ao agradecer os aplausos do nada
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Lindo, lindo. Assisti a um programa, episódio da série The Universe, primeira temporada. Conta como um dia tudo acabará. O sol inchará como um balão, devorará Mercúrio assim, tlec, num estalar dos dedos, e em seguida Vênus será o segundo planeta a ser aniquilado, esquentará e inflará tanto que chegará próximo à Terra, que, chamuscada, derreterá em sua crosta como carvão em brasa. Depois de espalhar calor infernal e brilho cegante em sua ira, o sol, com suas tensões assim esvaziadas, começará o caminho de volta, murchará, e murchará, e murchará até perder seu calor e então tudo, absolutamente tudo, congelará. Não precisa tirar as crianças e os vulneráveis da frente do computador, esse lindo ballet só acontecerá daqui a 5 bilhões de anos!
Acho essa verdade absurda matemática exata concisa precisa linda, parece poesia, parece música, mas é ciência que premedita o fim. No final, o Jalapão, o Irã, nós, nada voará pelo ar. Antes, seremos derretidos na grande caldeira que se tornará a Terra.
Como tentei dizer, vida é tudo o que sobra aqui no meio. E aqui no meio tem tudo o que eu já vivi, e ele importa, porque é tudo o que eu sinto.
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A foto é o resultado de um monte de meias-calças (socorro, qual o plural disso??) esmagadas contra a vitrine de uma loja da Galeria Ouro Fino, na Rua Augusta, lá por 2004, acho. Lembram-me as imagens do telescópio Hubble apanhadas em seu silencioso voo entre as estrelas a flagrar cores, estrelas nuas, exuberância galáctica nos jardins infinitos do Céu.
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O caos é belo.
O caos é causa.
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A canção transcrita abaixo é campeã de audiência (ei, não deveria ser “de audição”?) no meu iTunes. Adelle, Chasing Pavements.
E olhem que lindo o clip dela em http://www.youtube.com/watch?v=uBmwdlBFs1s.
I've made up my mind
No need to think it over
If I'm wrong I ain't right
No need to look no further
This ain't lust
This is love but
If I tell the world
I'll never say enough
Because it was not said to you
And that's exactly what I need to do
If I'm in love with you
Should I give up
Or should I just keep chasing pavements
Even if it leads nowhere
Or would it be a waste
Even if I knew my place should I leave it there?
Should I give up
Or should I just keep chasing pavements
Even if it leads nowhere?
I'd build myself up
And fly around in circles
Wait then as my heart drops
And my back begins to tingle
Finally could this be it
Should I give up
Or should I just keep chasing pavements
Even if it leads nowhere
Or would it be a waste
Even if I knew my place should I leave it there?
Should I give up
Or should I just keep chasing pavements
Even if it leads nowhere?
Should I give up
Or should I just keep chasing pavements
Even if it leads nowhere
Or would it be a waste
Even if I knew my place should I leave it there?
Should I give up
Or should I just keep chasing pavements
Even if it leads nowhere?

