domingo, 27 de dezembro de 2009

A bailarina


Após ajeitar a neném suavemente no berço, Jô lembrou-se de sua mãe dizendo que criança recém-nascida tinha de ser deitada era de lado. Sorriu intimamente. Lembranças. Antes de sair para os afazeres do dia, deu uma leve balançada no berço. Embalar o sono de sua pequena bailarina. Contemplou as mãozinhas frágeis, ainda fechadas, que provavelmente ficavam na mesma posição quando ainda estavam dentro do útero, semanas antes. Pensou em coisas que as mãos da filha ainda fariam: em idade pré-escolar, apertando um lápis de cor sobre o papel quadriculado; depois, entrelaçadas às de algum rapazinho de boa índole, cabeças coladas ao som de música romântica; apreensivas, percorrendo a lista de aprovados no vestibular de 2028; no altar, recebendo um anel das mãos de seu futuro genro (aquele mesmo rapaz bonzinho, qual seria o nome dele?). Imaginou, então, esse ser minúsculo, que naquele momento dormia feito anjo sob seus olhos, um dia guardando o sono de outro ser minúsculo, exatamente como ela própria, sua mãe e sua avó haviam feito. O tempo é ciclo. Deixando um beijo miúdo, depositado com o indicador na bochecha de sua neném, Jô apagou a luz do quarto e saiu pé ante pé. A vida é uma dança, pensou.

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O quadro da foto, intitulado "The child's bath", datado de 1892, é de Mary Cassatt e pertence ao acervo do The Art Institute of Chicago, onde a foto foi tirada, em junho de 2009. Ainda estou impregnado de Natal.

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Hoje, cultivemos o deus Amor.