sábado, 7 de novembro de 2009

Blanche Neige














Tudo me é inteiramente desconhecido, nada me é suficientemente estranho.

Aqui em disfarce nesse sanatório limpo isento mascaro você tão volúvel, tão sábado.

Nesses dias infindáveis constantes me escondo em azul vileza loucura mansa rasa à beira, clara, estupefata, cansada, rasa árida vívida morta. Absurda.

Aqui no mundo cego onde tudo é branco e asséptico e definido e estúpido, sinto medo.
Na noite branca treva oculto o escuro o louco o tolo me vivifica intoxica cala fala saia, não quero não posso não sustento suporto não gosto. Gosto amargo de lírios sustento suporte fomento. Relembro.

Nesse manicômio nos escondemos nove noites negras loucos nos encontramos onde foi mesmo?, em seus olhos olhei-os bolas vítreas negras soltas presas meus olhos bolas foscas cinzas reflexo retorcido, impróprio, sujo, vi-me no seu. Reflexo exatamente em seus olhos, entre loucos e doentes e santos visava você e a voz sua rouca encontrava exalava medo meu teu amargo olhos nos seus preso vi-me lago largo reflexo lua próprio eu santo louco limpo Tejo solto fluido. Profundo. Mártir.

Em ala por nós habitada anjos vi alados presos suas asas cortadas livres voavam não precisavam do peso impenetrável da razão entre grades um nada e outro escuro pesados castelos, sanatório de pedra. Razão.

Nove novas luas claras redondas soltas fluidas me perco me solto me banho me Tejo desminto meu cedo meu mundo.

Paradoxo amor sutil sublime peso indisfarçável do medo na claridade asséptica terreno firme sólido rocha árido sem sementes dentes asas nada fluidos rumo restos dúvida respostas. O que é escuro e sombrio e fosco e o que é luminoso e raso e denso se a lua cheia clara flutua fluida alta solta em plena noite? Seus olhos negros vítreos pérolas vi-me espelho em seu medo susto amor mágoa saia volte goste aprenda estúpido sábado.

Nada me estranha conquanto nada me conheça.

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Ontem, noite de dança no Teatro Alfa, Branca de Neve com o Ballet Preljocaj, encerramento da temporada 2009. Luzes e trevas alternam-se numa dança infindável chamada amor. Vida, para alguns. Branca como a neve na mais negra noite. Anões high-tech fazem rapel, cambalhotas pelo ar, graça, madrasta má, veneno. Dançar para esquecer. Dançar de novo para lembrar.

A foto tirei com o meu celular do chão da entrada da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), em São Paulo, durante a exposição de Christian Lacroix, em outubro de 2009. Reflexo das luzes dos vitrais coloridos sobre o cinza do granito. Pisam no chão frio mas celebram a volta do sol .

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Ainda sobre o mesmo tema – razão e loucura, luz e cegueira, paralisação e movimento – transcrevo pequeno trecho de “Após o anoitecer”, de Haruki Murakami (Alfaguara, 2009), tradução de Lica Hashimoto:

“Depois, Shirakawa examina seu rosto refletido no espelho do banheiro. Por um longo tempo, ele se encara com um olhar fixo e severo, sem mover os músculos da face. As mãos estão apoiadas na pia do lavatório. Prende a respiração e fixa a atenção, sem piscar os olhos. Sua expectativa é que, agindo assim, outra coisa possa acontecer. O que está tentando fazer é tornar os sentimentos mais objetivos, nivelar a consciência, congelar temporariamente o raciocínio e brecar o tempo por alguns segundos. Ele quer fundir sua própria existência nesse cenário. Quer que tudo pareça um quadro neutro de natureza-morta”.

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Dançar é um afago que a gente faz pra si mesmo.

No kisses, não quis.