sábado, 14 de outubro de 2017

Graspman





E como uma segunda pele, um calo, uma casca
uma cápsula protetora


Silêncio é o nada ruído. 
Tome de volta as luvas, não me servem mais.
Não permitem acreditar
A pele, sim
Ouvir com o tato
Escutar pelo toque
Aspereza viva
Arpergillus
A canção que se toca
O som
Unissom
Mushroom

A garra adere à flor
Da pele
Pelagem
Grasp me
Grasp it
Tatuagem

Nas mãos a seda
Na seda o mofo, a vida
Levitando
Tentando
Ser
Levedura

No groove, no gloves
Toque

***

Foto: vista que toco da janela do meu quarto. Tátil.
Curitiba, 2017

***

"Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado"

(Adriana Calcanhotto, Esquadros)
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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Parece cocaína


Você precisa acreditar
Precisa acreditar
A Amazônia, o Japão
Tudo é tão relativo
O espaço é reativo
O tempo é criativo
Naus

Você tende acreditar
Na força do leito
O Rio, vertente
Peirce.
Tudo é absolutamente
O tempo é um
O espaço é dois
Céus

Você tem de crer
Você
Na chuva, o Acre
Empate
Tudo é tão simplesmente
O espaço indiferente
O tempo inexistente
Em Iraque, aqui
Sóis

***
Foto: Shibuya, Tóquio, 2010

***

"Se pudéssemos conservar a energia que prodigamos nessa sucessão de sonhos realizados noturnamente, a profundidade e a sutileza do espírito alcançariam proporções insuspeitáveis. O argumento de um pesadelo exige um desgaste nervoso mais extenuante que a construção teórica melhor articulada. Como, após o despertar, recomeçar a tarefa de alinhar ideias quando, na inconsciência, estávamos imersos em espetáculos grotescos e maravilhosos, e perambulávamos através das esferas sem o obstáculo da antipoética Causalidade? Durante horas fomos semelhantes a deuses ébrios e, subitamente, quando os olhos abertos suprimem o infinito noturno, temos que voltar a enfrentar, sob a mediocridade do dia, uma porção de problemas incolores, sem que nos ajude nenhum dos fantasmas da noite".

(Cioran, Breviário de decomposição, trad. José Thomaz Brum, Editora Rocco, 2011) 

***
vento frio e úmido marítimo persistente garante um começo de madrugada com variação de nuvens e temperatura amena em São Paulo nesta quarta-feira. No momento os termômetros registram 16 graus  Áreas de instabilidade seguem ativas e proporcionam uma noite de tempo chuvoso na capital federal E avançam provocando chuva forte e trovoadas sobre toda a região Para o final de semana, a previsão é de

***
Absolutos, relativos.

Três.

domingo, 27 de outubro de 2013

Predicado


Sujeito mais verbo mais
ontem pela manhã. Por um ônibus na pista lateral da Marginal
Sentido: Centro.
Represália. Ação. PM.
Passivo: Reativo
Pensamento. Sentimento.
Cidade, alta.
Advérbio. Modo. Tempo.
Verbo: Transitivo
Sujeito: indeterminado.
     Separa
Sentido: Dentro.
Chama. Complemento.
Ardência. Ao urinar, ao longe, multidão, vertente.
Fértil. Oriente. Amazonas. Irã, Rio. Vento
Sorrio. Tédio. Sorrio.
Ocidente. Japão. Cio
Conciliação.
Despacho. Cumpra-se. F@@a-se.
Sujeito: Oculto
Objeto: Direto
     Une
De novo: Again
Morde. Não. Lento. Gruda
Cola
Adjunto.
Em mim, sujeito
ativo, como.
Você: Complemento
(modos)
Dormir e virar, vírgula, sonhar.
Ponto.

***

Fotos. Sequência. Manhã. Domingo. Parque. Tóquio. 2010.

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Em português errado, essa todos conhecem:

Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre
Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente
Estou cansado de bater e ninguém abrir
Você me deixou sentindo tanto frio
Não sei mais o que dizer

Te fiz comida, velei teu sono
Fui teu amigo, te levei comigo
E me diz: pra mim o que é que ficou?

Me deixa ver como viver é bom
Não é a vida como está, e sim as coisas como são
Você não quis tentar me ajudar
Então, a culpa é de quem? A culpa é de quem?

Eu canto em português errado
Acho que o imperfeito não participa do passado
Troco as pessoas
Troco os pronomes

Preciso de oxigênio, preciso ter amigos
Preciso ter dinheiro, preciso de carinho
Acho que te amava, agora acho que te odeio
São tudo pequenas coisas e tudo deve passar

Acho que gosto de São Paulo
E gosto de São João
Gosto de São Francisco e São Sebastião

(Legião urbana, Meninos e meninas)

***

Feliz

***

Ontem, Eastman Dance Company na Temporada 2013 do Teatro Alfa. Projeto Puz/zle: www.east-man.be/en/14/12/Puzzle

Do mármore vieste...

sábado, 19 de outubro de 2013

Give me truth.












Deixou lá seu coração e, descompassado, saiu a dançar.
Subindo, me traí. Atraí a verdade.
Não me dê amor. Não tenho expiação. A expiação é o exílio, o resto são chamas.
Dê-me verdade. A explicação é esta, o resto a chama.
Mas como escapar de mim mesmo?
Perdas são potencialidades. Sementes plantadas no hoje, alimento do amanhã. Vontade de rir! Para não dizer dor.
Como exilar-me de mim?  O resto são chamados.
Amores líquidos são o vazio, o sei. Não siga meu exemplo, Mariana, amores são alimento, exílio, e vento.
Hoje, há fome.

Para não dizer, dor.

***

Cerrar los Ojos (Lisandro Aristimuño)

Pena me dio no verte,
sacarle la soga a la muerte,
sin piedad y sin razón
han destrozado la ilusión
de toda la gente que vive sola
atada a un cruel destino,
si no hay camino por recorrer,
cerrar los ojos es perder.
(Y una vez mas es así)

Sigo creyendo en sueños,
que los días no tienen dueño
y que hay verdad y que hay amor.
Cerrar los ojos es perder.

Frío de la noche,
no hay nombre para este dolor.
Cielo de mis noches,
que viva la revolución.

***

Foto de Colônia, Uruguai, dias ensolarados e frios daquele início de outubro de 2013. Azulejos testemunham o passado português, canhões, luta. Tudo é verdade.

***

"Rather than love, give me truth" (Thoreau)

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Traçado


Eu lutava com o Anjo,
Com o Mensageiro que nunca mais me deixou.
Que nome tem o que não morre?
O nome de Deus é qualquer,
pois, quando nada responde,
ainda assim uma alegria poreja.

(Adélia Prado, Caderno de Desenho)

Hoje queria lhe mandar as flores. Mas hoje não é exatamente o que havíamos imaginado dele. Não as mandei.

Envergonhei-me das flores porque elas não correspondem ao plano traçado. As flores não seriam mais capazes de dizer o que estavam pressupostas a, são não flores.

A vergonha das flores é uma forma de medo, porque tememos o que não é, tememos o medo, e por isso ele mostra a cara assim, as mãos apertadas, os olhos ao chão, não se apresenta com o nome que tem. Pede desculpas por aquilo que não realiza.

Realizar não contém o real. Vontade de rir. O irrealizado, como o medo, o irreal, também se envergonha de si.

O hoje, queria vivê-lo ao seu lado, é um não hoje. Aquela receita que nem às vezes saía como esperado. Trilhar com você Mariana a cidade histórica e suas ladeiras de paralelepípedos e de lembranças e anjos. Vinho para bebermos Adélia e nos embriagarmos de nós. Sanduíches de risadas! Lily com Marshall, Ted sem Stella, eu e você. Friends, rir outra vez do que somos e do que não somos, até nos entregarmos ao deus do sono, nos entregarmos ao Todo, cabeças opostas no sofá, pernas unidas, yin-yang disfarçado em trivialidades. Cantar com você O meu amor depois do amor e acordar a vizinhança e o sol e os pássaros antes de nós. Eu lhe mostraria uma dança, uma Montevidéu úmida e então lhe encontraria todo dia a um canto da casa tragando, tranquila e nua a cidade aos seus pés.

Envergonhei-me do não hoje porque ele era o traçado, o passado e acordei sem as flores, o criado mudo. As não flores são suas, desculpe o embrulho, o medo, o mundo.

***

Nunca cantei essa canção para você:

There'll be no strings to bind your hands
not if my love can't bind your heart
And there's no need to take a stand
for it was I who chose to start
I see no reason to take me home,
I'm old enough to face the dawn

Just call me angel of the morning, angel
Just touch my cheek before you leave me, baby
Just call me angel of the morning, angel
Then slowly turn away from me

Maybe the sun's light will be dimmed
So it won't matter anyhow
If morning's echo says we've sinned,
Well, it was what I wanted now
And if we're the victims of the night,
I won't be blinded by the light

Just call me angel of the morning, angel
Just touch my cheek before you leave me, baby
Just call me angel of the morning, angel
Then slowly turn away

I won't beg you to stay with me
Through the tears of the day,
Of the years, baby baby baby

(The Pretenders, Angel of the morning)

***

Mariana, foi só você falar: as palavras te ouviram e voltaram =]

***

O hoje é passarinho. Voará para onde?

domingo, 9 de outubro de 2011

O buraco no muro


Para Carmela Grüne, derrubadora de muros

Na última semana, em função da comemoração do próximo Dia das Crianças, os funcionários da empresa onde trabalho puderam levar seus filhos pequenos para passar o dia conhecendo o local de trabalho de seus pais.

Uma dessas crianças tinha o mesmo nome que eu, ainda que grafado com “S” – Luís – e logicamente a coincidência não lhe passou despercebida. Quando conversamos, ele fez várias afirmações na primeira pessoa do singular (“Eu” vou falar para o serviço de manutenção ser mais organizado, “eu” vou trabalhar até tarde e assim por diante), até que eu percebesse que, pela identidade do nome, ele na verdade se referia a mim!

Quem sou “eu”? É a pergunta na qual ele me fez pensar. Como nos construímos?

Nessa mesma semana, revi o filme "Um homem sério", dos irmãos Cohen (A serious man, 2009) e achei muitos direcionamentos por lá. Leia um trecho que transcrevi do diálogo entre Larry, o personagem central, e o rabino Nachter :

 Hashem quer me dizer que o Sy Ableman sou eu? Ou que 
   somos apenas um, algo assim?
– De que forma Deus fala conosco? É uma boa pergunta.
    
[...]
– O que significa, rabino? É um sinal de Hashem? 
   ... A resposta está na Cabala? Na Torá? 
   Será que existe uma pergunta?  
   Me diga, rabino, o que esse sinal significa?
– Não podemos saber tudo.
– Parece que você não sabe nada! Por que me contou isso?
– As questões que o afligem podem doer como dor de dente. 

   Sinta-as por um tempo, e desaparecerão.
 Não quero que desapareçam! Quero respostas!
– Todos nós queremos respostas! 

   Hashem não nos deve respostas. Hashem não nos deve nada. 
   A obrigação é ao contrário.
 Por que Ele nos dá as perguntas se não dá as respostas?
– [Rindo] Isso Ele nunca me contou!

 ***

A foto acima foi tirada no Museu Edo-Tóquio, em de março de 2010. Todos os olhares são possíveis.

***

Tenho refletido muito sobre Paulo Freire, sobre a ideia de que ninguém nos ensina, de que nos ensinamos uns aos outros, de que o conhecimento e o sentido das coisas, nós os criamos juntos.

O vídeo cujo link segue mais abaixo, intitulado "O buraco no muro", me emocionou. Porque representa uma possibilidade.

Numa favela na Índia, país que guarda tantos possíveis paralelos com o nosso (somos uma espécie de Luiz e Luís?), crianças ensinam umas as outras a utilizar a Internet e, a partir dela, a construir o conhecimento. Porque num buraco no muro que divide a favela e uma empresa de informática foi aberta uma chance dessas crianças desenharem seu conhecimento desse novo mundo que se descortina para nós. Fiquei até pensando de qual "buraco" o filme estaria falando. Um buraco no muro para mirar o outro lado, uma janela para aprender a enxergar além, uma porta para entrar no futuro.

A sociedade da informação, por meio do acesso de qualquer pessoa à cultura, a dados e principalmente a uma voz, capaz de ser multiplicada de maneira viral, a uma velocidade estonteante, é muito perigosa.

Perigosa para o status quo, na medida em que deslegitima certas crenças sobre as quais os detentores do poder (político, social, econômico...) se apoiam para justificar uma relação de dominantes e dominados.

Mas o que o simples olhar através de um buraco no muro é capaz de provar! Que o ser humano, independentemente de sua classe social e do grau de inserção na cultura institucionalizada, traz em si um potencial de auto-realização e, por conseguinte, de provocar mudanças em seu meio, subvertendo a ordem programada por quem se interessa por mantê-los em seus lugares de origem.

Quantos séculos de subjugação um simples "olhar através" é capaz de remover.

Essa constatação abre espaço para alargarmos o buraco. O papel da escola tradicional é esvaziado como centro de divulgação de conhecimentos, pois ele, o conhecimento, está em qualquer lugar e na era da informação é descentralizado, livre e tão ilimitado quanto a nossa humana capacidade de aprendermos, reciclarmos, (re)inventarmos o conhecimento e a nós mesmos.

Vale a pena vê-lo:


***

Nesse novo, revolucionário e “perigoso” sentido paulofreiriano, Luiz e Luís são mesmo uma só pessoa. Como cedo descobriu meu amiguinho de sete anos de idade.

Receba com simplicidade tudo o que acontece com você (Rabi Rashi).

domingo, 21 de agosto de 2011

Meet me in Montauk

















Não sei mais ler o futuro. Quero adivinhar o passado.

Este é um dia particularmente cinza que está fazendo hoje. Esqueci como é o seu rosto. Retrato descuidado roído por traças que desvanece lentamente como que lavado por águas preguiçosas que vão apagando sua imagem, voz, brigas, risadas, olhar, sorriso, palidez, lembranças, presença. Não há violência maior que o esquecimento.

Os trechos a seguir são diálogos transcritos do filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Leia ouvindo – ou imaginando – que a música mais triste que você conhece está tocando ao fundo. Se você não tiver nenhuma, sugiro Years of Solitude, com Astor Piazzolla e Gerry Mulligan. 

"Now, the, uh – the first thing we need you to do, Mr. Barish, is to go home... and collect everything you own that has some association with Clementine. Anything. And we'll use these items to create a map of Clementine in your brain. Okay? So we'll need, uh, uh, photos, clothing, gifts, books she may have bought you, CDs you may have bought together, journal entries. We want to empty your home – we want to empty your life of Clementine. And after the mapping is done, our technicians will do the erasing in your home tonight. That way, when you awake in the morning, you'll find yourself in your own bed as if nothing had happened – a new life awaiting you."

Lembranças são sensíveis. Entenda como quiser.

"I could die right now, Clem. I'm just... happy. I've never felt that before. I'm just exactly... where I wanna be".

Enquanto sua memória vai sendo mecanicamente, selvagemente, barbaramente apagada, você se vira para o seu algoz, a música ao fundo ficando mais e mais alta, mais intensa, mais aflita, e você murmura, quase em súplica:

"Dr. Mierzwiak, please let me keep this memory. Just this one."

Suas lembranças são lâminas com as quais você se mutila:

"No, I don't think her sex is... motivated. I saw it clearly the last night we were together. It wasn't sex. It was just... sad."

A música triste continua. Mais lenta de novo, agora.

“I'll get bored with you and feel trapped... because that's what happens with me.”

***

A foto acima produzi hoje, para lembrar do que esqueci.

***

Não por coincidência, estou lendo The fabric of the cosmos. Space. Time. And the texture of reality, do físico Brian Greene (Vintage Books, 2004, p. 191), que diz assim (tradução livre):

“Uma observação feita hoje pode ajudar a completar a história que contamos sobre um processo que começou ontem, ou antes de ontem, ou talvez um bilhão de anos atrás. Uma observação feita hoje pode delinear os tipos de detalhes que podemos e devemos incluir na história que contamos hoje sobre o passado. [...] Apagando o passado. É de essencial importância notar que nesses experimentos...”

[sobre realidade quântica, em que sensores de fótons dispostos em vias de passagem da luz tentam observar como se dá o “comportamento” dessas partículas quanto à escolha do caminho por onde seguir]

“...o passado não é, de nenhuma maneira, alterado por ações do presente [...] Isto levanta a seguinte questão: se você não pode mudar algo que já aconteceu, você pode fazer a próxima melhor opção e apagar seu impacto sobre o presente?”.

Hum, interessante.

***

O lado triste da história é no final não haver história.

Technicians will do the erasing.

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P.S.: [Numa fita K-7] My name is Clementine Kruczynski.  I'm here to erase Joel Barish. He's boring. Is that enough reason to erase someone? I've been thinking lately how I was before and how I am now, and it's like he changed me. I feel like I'm always pissy now. I don't like myself when I'm with him. I don't like myself anymore. I can't stand to even look at him. That pathetic, wimpy, apologetic smile – that sort of wounded puppy shit he does, you know...?"