Não sei mais ler o futuro. Quero adivinhar o passado.
Este é um dia particularmente cinza que está fazendo hoje. Esqueci como é o seu rosto. Retrato descuidado roído por traças que desvanece lentamente como que lavado por águas preguiçosas que vão apagando sua imagem, voz, brigas, risadas, olhar, sorriso, palidez, lembranças, presença. Não há violência maior que o esquecimento.
Os trechos a seguir são diálogos transcritos do filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Leia ouvindo – ou imaginando – que a música mais triste que você conhece está tocando ao fundo. Se você não tiver nenhuma, sugiro Years of Solitude, com Astor Piazzolla e Gerry Mulligan.
"Now, the, uh – the first thing we need you to do, Mr. Barish, is to go home... and collect everything you own that has some association with Clementine. Anything. And we'll use these items to create a map of Clementine in your brain. Okay? So we'll need, uh, uh, photos, clothing, gifts, books she may have bought you, CDs you may have bought together, journal entries. We want to empty your home – we want to empty your life of Clementine. And after the mapping is done, our technicians will do the erasing in your home tonight. That way, when you awake in the morning, you'll find yourself in your own bed as if nothing had happened – a new life awaiting you."
Lembranças são sensíveis. Entenda como quiser.
"I could die right now, Clem. I'm just... happy. I've never felt that before. I'm just exactly... where I wanna be".
Enquanto sua memória vai sendo mecanicamente, selvagemente, barbaramente apagada, você se vira para o seu algoz, a música ao fundo ficando mais e mais alta, mais intensa, mais aflita, e você murmura, quase em súplica:
"Dr. Mierzwiak, please let me keep this memory. Just this one."
Suas lembranças são lâminas com as quais você se mutila:
"No, I don't think her sex is... motivated. I saw it clearly the last night we were together. It wasn't sex. It was just... sad."
A música triste continua. Mais lenta de novo, agora.
“I'll get bored with you and feel trapped... because that's what happens with me.”
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A foto acima produzi hoje, para lembrar do que esqueci.
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Não por coincidência, estou lendo The fabric of the cosmos. Space. Time. And the texture of reality, do físico Brian Greene (Vintage Books, 2004, p. 191), que diz assim (tradução livre):
“Uma observação feita hoje pode ajudar a completar a história que contamos sobre um processo que começou ontem, ou antes de ontem, ou talvez um bilhão de anos atrás. Uma observação feita hoje pode delinear os tipos de detalhes que podemos e devemos incluir na história que contamos hoje sobre o passado. [...] Apagando o passado. É de essencial importância notar que nesses experimentos...”
[sobre realidade quântica, em que sensores de fótons dispostos em vias de passagem da luz tentam observar como se dá o “comportamento” dessas partículas quanto à escolha do caminho por onde seguir]
“...o passado não é, de nenhuma maneira, alterado por ações do presente [...] Isto levanta a seguinte questão: se você não pode mudar algo que já aconteceu, você pode fazer a próxima melhor opção e apagar seu impacto sobre o presente?”.
Hum, interessante.
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O lado triste da história é no final não haver história.
Technicians will do the erasing.
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P.S.: [Numa fita K-7] My name is Clementine Kruczynski. I'm here to erase Joel Barish. He's boring. Is that enough reason to erase someone? I've been thinking lately how I was before and how I am now, and it's like he changed me. I feel like I'm always pissy now. I don't like myself when I'm with him. I don't like myself anymore. I can't stand to even look at him. That pathetic, wimpy, apologetic smile – that sort of wounded puppy shit he does, you know...?"